Mudar o regime Servir Portugal

Manuel Beninger

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Liberalismo Vs Miguelismo

As lutas liberais foi um momento importante da nossa história. Isto porque colocaram em confronto dois irmãos que defendiam valores e principios totalmente opostos um do outro, pelo que seria impossível que a escolha de um agradaria ao outro.
A morte de D.João VI deixou o trono vazio. No entanto, devido à questão brasileira foi díficil de resolver. Era impraticável D.Pedro ser Imperador do Brasil e Rei de Portugal ao mesmo tempo, até porque as leis brasileiras não o permitiram, no entanto a escolha em D.Miguel seria a continuação da mesma política seguida há muitas décadas.
Conceder o trono a D.Pedro também tinha um risco político. É que o Imperador do Brasil vinha fazer um corte profundo naquilo que era a tradição monárquica portuguesa. Isso era mexer contra os interesses instalados, retirando poder àqueles que normalmente eram os maiores beneficiados com o sistema vigente. Não que com o liberalismo Portugal mudasse radicalmente, mas o absolutismo real há décadas que durava e necessário era uma lufada de ar fresco.
Foi com o liberalismo que se tentou pela primeira vez instalar um regime constitucional. O projecto da Carta Constitucional foi um sinal disso mesmo. Como o nome indica, Liberalismo significava instaurar um regime libertário, onde as separação dos poderes fosse a concretização no plano teórico mas também prático. Enquanto isso, os miguelistas eram conservadores e queriam manter tudo como estava. Havia um receio fundado que os liberais queriam "democratizar" a Monarquia.
A Carta constitucional de 1826 foi um importante passo para uma Monarquia Constitucional quase perfeita.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Rainha Maria II nasceu há 193 anos

Dona Maria II de Portugal (nome completo: Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança; Rio de Janeiro, 4 de abril de 1819 - Lisboa, 15 de novembro de 1853), era filha do Rei D. Pedro IV de Portugal (Imperador do Brasil como D. Pedro I) e da arquiduquesa Dona Leopoldina de Áustria. Foi cognominada de A Educadora ou A Boa Mãe, em virtude da aprimorada educação que dispensou ao seus muitos filhos. Dona Maria da Glória era loira, de pele muito fina, olhos azuis como a mãe austríaca. Foi a 31ª Rainha de Portugal e dos Algarves aquando da abdicação do pai de 1826 a 1828 e de 1834 a 1853.
D. Maria II era Rainha de Portugal depois da abdicação de seu pai, Pedro IV (D.Pedro I, no Brasil) em seu favor, em 1826. Deixou o Rio de Janeiro a 5 de julho de 1828, sob o título de duquesa do Porto, sendo reconhecidos os seus direitos à coroa de Portugal por algumas potências europeias. O marquês de Barbacena, Felisberto Caldeira Brant, foi o escolhido por D. Pedro IV para acompanhá-la.
D. Miguel de Bragança, seu tio, chegara a Lisboa a 9 de fevereiro de 1828 e desembarcara no dia 22, recebendo das mãos de D. Isabel Maria de Bragança a regência, e ratificando a 26 o juramento que prestara à Carta Constitucional perante as cortes que a infanta havia convocado. Não tardou a mudar de resolução. A 13 de março dissolveu as cortes, convocando em 3 de maio o conselho dos três Estados para decidir a quem pertencia a coroa, segundo a antiga forma das cortes do país, quando se tratava de graves pontos de direito.
O conselho reuniu-se a 21 de junho e a 25, proclamando D. Miguel rei absoluto, em precipitada resolução, em vista do ato de reconhecimento do herdeiro da coroa prestado pela regência e real câmara dos pares, instituída pela Carta Constitucional, acerca da sucessão da Casa de Bragança nas duas coroas de Portugal e Brasil, e particularmente na do Portugal, já indicada nas conferências realizadas em Londres em agosto de 1823.
E também nos preliminares do tratado de 25 de agosto de 1823, que reconheceu a Independência do Brasil, onde a tal respeito foi apresentado na conferência de 9 de agosto o seguinte Artigo Secreto: «Como por causa da aceitação da renúncia pessoal do imperador do Brasil, D. Pedro, à Coroa de Portugal, as Cortes de Portugal devem determinar qual dos filhos do imperador será chamado à sucessão daquela coroa por morte do presente rei: entende-se que as ditas Cortes podem chamar à sucessão o filho mais velho do dito imperador do Brasil, ou a filha mais velha, na falta de descendência masculina.»
O infante D. Miguel residia em Viena, para onde fora mandado, por carta regia de 12 de maio de 1824, depois da revolta de 30 de abril ou Abrilada. Os brasileiros não aceitaram que o imperador cingisse a coroa portuguesa, o que resultaria na unidade da antiga monarquia, da qual haviam se libertado.
D. Pedro, depois de proclamado Rei de Portugal, resolveu abdicar a coroa portuguesa nesta filha D. Maria da Glória em 3 de maio, tendo em 29 de abril outorgado aos portugueses uma constituição livre, a Carta Constitucional. A abdicação era condicional: a princesa casaria com seu tio Dom Miguel, e enquanto se não realizasse o consórcio, e o novo regime não dominasse em Portugal, continuaria a regência de Dona Isabel Maria em nome de D. Pedro IV.

O reinado foi interrompido pelo levantamento absolutista liderado por seu tio, noivo e regente D. Miguel I, que se proclamou rei de Portugal a 23 de junho de 1828. Começaram então as Guerras Liberais que se prolongam até 1834, ano em que Maria foi reposta no trono e D.Miguel exilado para a Alemanha.
O marquês de Barbacena, chegando a Gibraltar com a princesa em 3 de setembro de 1828, teve conhecimento por um emissário do que se passava em Portugal. Teve a perspicácia de compreender que D. Miguel viera de Viena resolvido a pôr-se à frente do movimento absolutista, aconselhado pelo príncipe Metternich, que dirigia a política européia, sendo assim perigoso a jovem rainha ir para Viena. Tomando a responsabilidade, mudou a direção da viagem, e partiu para Londres, onde chegou a 7 de outubro. A política inglesa nada favorecia seus intuitos. O gabinete de lorde Wellington patrocinava abertamente D. Miguel, de sorte que o asilo que o Marquês procurara não era seguro. D. Maria II foi recebida na corte com as honras devidas à sua elevada hierarquia, mas os ingleses impediam seus súditos ali emigrados de irem reforçar a guarnição da ilha Terceira.
O golpe de Estado de D. Miguel não passara sem protestos. A 16 de maio de 1828 revoltava-se a guarnição do Porto, a 25 em Lagos um batalhão de infantaria. As revoltas foram sufocadas. Saldanha, Palmela, e outros, que tinham vindo para tomar a direção do movimento do Porto, reembarcaram no Belfast, que os trouxera; a guarnição do Porto, reforçada pelos voluntários académicos de Coimbra e por outras tropas liberais, emigrava para a Galiza e dali para Inglaterra. À frente duma pequena expedição liberal tentou Saldanha desembarcar na Terceira, mas não lho consentiu o cruzeiro inglês, cuja vigilância não pôde, contudo, evitar algum tempo depois que o Conde de Vila Flor, mais tarde da Terceira, conseguisse desembarcar. A tempo, porque em agosto de 1829 aparecia na frente da ilha a grande esquadra miguelista que lançou em terra um corpo de desembarque. Deu-se então a batalha de 11 de agosto na vila da Praia, em que os miguelistas foram derrotados. Quando os emigrados na Inglaterra receberam a notícia da vitória, sentiram grande entusiasmo. Logo perderam as esperanças ao saber que a jovem rainha voltava para o Brasil. Na verdade, a situação de D. Maria II na corte inglesa, ao lado do ministério no poder, tornava-se embaraçosa e humilhante. A rainha saiu de Londres para ir encontrar com sua futura madrasta, D. Amélia de Leuchtenberg. Partiram juntas em 30 de agosto de 1829 para o Rio, chegando a 16 de outubro.
Julgava-se perdida a causa constitucional. Os emigrados dispersos (França, Inglaterra e Brasil) dividiam-se em facções rivais. Só a ilha Terceira reconhecia os princípios constitucionais, e mesmo ali apareciam guerrilhas miguelistas. A França estava já disposta a reconhecer o governo de D. Miguel quando em 1830 rebentou em Paris a revolução de Julho, o que fez animar os liberais portugueses.

Em 1831, D. Pedro I abdicou em 7 de abril da coroa do Brasil, dando-a ao seu filho, D. Pedro II, irmão de D. Maria II, e veio para a Europa, com a filha e a segunda mulher, sustentar os direitos da filha à coroa de Portugal. Tomou o título de Duque de Bragança, e de Regente em seu nome.
Quase ao mesmo tempo a regência da ilha Terceira, nomeada por D. Pedro e composta do Marquês de Palmela, do Conde de Vila Flor e de José António Guerreiro, pode preparar uma expedição que em pouco tempo se apossou dos Açores. Enquanto se ampliava assim o território constitucional, D. Pedro desembarcava em França, sendo acolhido com simpatia pelo novo governo e por Luís Filipe I. O governo de D. Miguel desacatara as imunidades dos súbditos franceses, não satisfizera de pronto as reclamações do governo francês, que mandara uma esquadra comandada pelo almirante Roussin forçar a barra de Lisboa e impor humilhantes condições de paz.
D. Pedro deixou a filha em Paris para acabar a sua educação, entregue à madrasta, com bons mestres, e partiu para os Açores à frente duma expedição organizada na ilha de Belle-Isle, reunindo seus partidários. Chegando aos Açores a 3 de março de 1832, formou novo ministério, juntou pequeno exército, cujo comando entregou ao Conde de Vila Flor, meteu-o a bordo duma esquadra que entregou ao oficial inglês Sartorius, e partiu para Portugal continental, desembarcando a 8 de julho na Praia da Memória, em Matosinhos. Seguiu-se o cerco do Porto e uma série de combates, até que a 24 de Julho de 1833 o Duque da Terceira entrou vitorioso em Lisboa, depois de ter ganho, na véspera, a batalha da Cova da Piedade. Porto e Lisboa, as principais cidades, estavam no poder dos liberais. D. Pedro veio para Lisboa, e mandou vir sua filha de Paris.
O Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio (zona central de Lisboa), tem o seu nome por ter sido inaugurado no dia de aniversário da rainha.

Casamentos
  • Com dispensa papal, por procuração, em 29 de outubro de 1826 casou-se com seu tio, o Infante D. Miguel (1802-66). O casamento foi dissolvido ou anulado em 1 de dezembro de1834. 
  • Casou em Munique por procuração em 1 de dezembro de 1834 e em pessoa em Lisboa em 26 de Janeiro de 1835 com o príncipe D.Augusto de Beauharnais. Batizado Augusto Carlos Eugénio Napoleão de Beauharnais, nascera em Milão em 9 de dezembro de 1810 e morreria em 28 de março de 1835 de difteria, no Paço Real das Necessidades, em Lisboa. Segundo duque de Leuchtenberg, Príncipe de Eichstadt, feito Príncipe de Portugal pelo casamento, 1° Duque de Santa Cruz no Brasil, feito em 5 de novembro de 1829 por seu sogro e cunhado D. Pedro I. Era filho de Eugénio de Beauharnais e da princesa Augusta da Baviera, e irmão mais velho da imperatriz D. Amélia, madrasta de Maria II.

Havia necessidade de um segundo marido. Apareceram candidatos de França, Nápoles, Alemanha e Sardenha e saiu vitorioso o sobrinho do rei Leopoldo I dos belgas:
  • Casou com o Príncipe D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, baptizado Fernando Augusto Francisco António de Saxe-Coburgo-Gotha, nascido em Viena em 29 de Outubro de 1816 e falecido em Lisboa a 15 de Dezembro de 1885 no Paço Real das Necessidades, estando sepultado em mosteiro de São Vicente de Fora. O contrato foi assinado no fim de 1835. Meses depois, chegou o marido. Haviam casado em Coburgo por procuração em 1 de janeiro de 1836 e, em Lisboa, em pessoa, na Sé patriarcal em 9 de Abril de 1836. Rei Consorte como Fernando II em 16 de Setembro de 1837, após o nascimento de um filho varão. Regente do reino durante a menoridade do filho Pedro V e depois até a chegada a Portugal do filho Luís I. Tiveram 11 filhos. Era filho de Fernando Jorge Augusto (Coburgo 1785-1851 Viena) príncipe de Saxe-Coburgo-Gotha e de Maria Antonia Gabriela(Viena 1797-1862 Viena), princesa herdeira de Kohary de Csabrag e Szitna. Viúvo, Fernando casaria, morganaticamente, em 1869, com a cantora Elisa Hensler, feita condessa de Edla.
Morte
Desde sua primeira gravidez, aos dezoito anos de idade, Dona Maria II enfrentou problemas para dar à luz, com trabalhos de parto prolongados e extremamente dificultosos. Exemplo disso foi sua terceira gestação, cujo trabalho de parto durou 32 horas, findas as quais, foi retirada a fórceps uma menina, batizada in articulo mortiscom o nome de Maria (1840).
Aos 25 anos de idade e em sua quinta gestação, a soberana tornou-se obesa e seus partos tornaram-se ainda mais complicados. Em 1847, o sofrimento fetal que precedeu o nascimento de seu oitavo filho – o infante Dom Augusto – trouxe ao mundo uma criança"bastante arroxeada e com pouca respiração".
A perigosa rotina de gestações sucessivas, somada à obesidade (que terminou por causar-lhe problemas cardíacos) e à frequência de partos distócicos (preocupante, especialmente por tratar-se de uma multípara) levaram os médicos a alertarem a rainha sobre os sérios riscos que corria. Indiferente aos avisos, Dona Maria II limitava-se a retorquir: "Se morrer, morro no meu posto".
Em 15 de novembro de 1853, treze horas após o início do trabalho de parto do natimorto Infante D. Eugénio, seu 11º filho, Dona Maria II morreu, aos 34 anos de idade. O anúncio da morte foi publicada no Diário do Governo de 16 de novembro de 1853:
"Paço das Necessidades, 15 de Novembro de 1853, à meia hora depois do meio dia.
Sua Magestade a Rainha começou a sentir annuncios do parto às nove horas e meia da noite de hontem. Appareceram difficuldades no progresso do mesmo parto, as quaes obrigaram os facultativos a recorrer a operações, pelas quaes se conseguiu a extracção de um Infante, de tempo, que recebeu o baptismo antes de extrahido.
O resultado destas operações teve lugar às dez horas da manhã. Desgraçadamente, passada hora e meia, Sua Magestade, exhausta de todas as forças, rendeo a alma a Deos, depois de haver recebido todos os sacramentos.
- Francisco Elias Rodrigues da Silveira. Dr. Kessler. Ignacio António da Fonseca Benevides. António Joaquim Farto. Manuel Carlos Teixeira."
Jaz no Panteão dos Braganças, no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A tentativa de reintegração do Brasil (1823-1824)

"Na sequência do golpe de estado Vila francada, levado a cabo pelo infante D. Miguel nos dias 27 de maio a 3 de junho de 1823, foi nomeado um novo governo, conhecido como o governo dos inauferíveis direitos, na medida em que restituía ao rei D. João VI os direitos reais abolidos pela Constituição de 1822. Nesse governo estava o conde de Palmela na pasta dos Negócios Estrangeiros, que nas suas memórias descreve como sendo um dos objectivos primordiais do governo o regresso do Brasil ao domínio da monarquia portuguesa. Só pela via diplomática Portugal poderia obter alguma vantagem nesse negócio, devido à situação económica e política débil e ao nítido favorecimento inglês à independência brasileira, condicionalismos que dificultavam a via militar como solução.

"Descreve-nos o Duque de Palmela nas memórias:
«A primeira tentativa, que naturalmente lembrou, foi a de solicitar a intervenção do Imperador da Áustria. Este, na qualidade de sogro do príncipe D. Pedro, interessado por isso na sua fortuna e bom nome, assim como pela sua condição de Soberano Legítimo, também devia influir na sustentação dos direitos da Coroa Portuguesa e parecia mais que ninguém indigitado para intervir nesta questão de um modo eficaz. O Gabinete austríaco, porém, contra a expectação de Portugal, recusou-se à intervenção solicitada, e conhecendo eu que esta recusa provinha do receio de ciúmes no Gabinete inglês, resolvi alterar o primeiro pedido e solicitar a mediação da Áustria conjuntamente com a Inglaterra, na esperança de neutralizar por este meio a parcialidade do Ministério inglês. Aceita esta proposta, entabulou-se em Londres uma negociação entre plenipotenciários portugueses e brasileiros debaixo da mediação do ministro britânico e do ministro austríaco. [...].
A maior dificuldade consistiu na exigência que os brasileiros apresentaram como ponto preliminar, do reconhecimento da sua independência [...]. Esta concessão preliminar era porém a que o Governo Português não se achava com força moral para outorgar in limine; e a negociação, como já dissemos, complicou-se sobremaneira pelas questões da sucessão à Coroa de Portugal. Esta sucessão, tanto El-Rei D. João VI, como os seus ministros, desejavam assegurá-la ao sr. D. Pedro, mediante estipulações (bem difíceis de combinar) para salvar não só os interesses, mas ainda a dignidade da Nação Portuguesa, evitando que depois do falecimento de El-Rei, ela ficasse sujeita a um Governo estabelecido no Brasil.
Para este fim lembrou a residência alternada do Soberano ora num, ora noutro hemisfério, com a condição, também, da residência do herdeiro da Coroa como regente, e com independência administrativa, naquele dos dois reinos onde não residisse o soberano. Para apoiar estas diligências com algum aparato de força, e proteger os interesses dos portugueses existentes no Brasil, preparou-se um armamento considerável em Lisboa, com que se ameaçou enviar uma expedição, no caso de ficar frustrada a negociação em Londres. Os acontecimentos de 30 de Abril* vieram, porém, reagir fatalmente nesta questão, obrigando o Governo de El-Rei, abalado no seu centro, a perdê-la temporariamente de vista, fazendo com que se abandonassem os preparativos começados da expedição. O Ministério inglês, cansado das delongas da negociação, e ansioso de concluir um tratado de comércio com o Brasil, lançou mão por fim de um pretexto para retirar a sua mediação. Foi o pretexto haver D. João VI mandado, por concelho do conde de Subserra, um emissário secreto ao Brasil (Carlos Matias Pereira), sem ter dado conhecimento deste passo às potências mediadoras. [...].Havendo então o ministro inglês nomeado como plenipotenciário (Sir Charles Stuart) para ir ao Brasil negociar o seu tratado de comércio com ordem de fazer escala por Lisboa, e de oferecer ali os seus bons ofícios para terminar a contenda com o Brasil, prestou-se o Governo de El-Rei D. João VI, de uma forma bem pouco apropriada aos interesses e decoro nacional, às insinuações da Inglaterra,** entregando-se, por assim dizer, à descrição do diplomata britânico, que foi nomeado também plenipotenciário português, concedendo-se destarte a um estrangeiro a faculdade de estipular a separação perpétua das duas partes da Monarquia Portuguesa, e o reconhecimento quase gratuito da independência da coroa do Brasil, que a tão caro preço se houvera podido vender.»

Das memórias do Duque de Palmela verifica-se que o governo português preferiu enveredar por uma diplomacia "musculada" ao invés de uma operação militar direta em território brasileiro, embora essa possibilidade não estivesse excluída de todo. Na tentativa de persuadir o governo brasileiro a um entendimento a diplomacia portuguesa recorreu à mediação anglo-austríaca, na suposição de que esta teria  alguma influência sobre o Imperador D. Pedro I . Contudo, Portugal estava isolado nesta questão: os ingleses verdadeiramente não queriam a reintegração na esfera portuguesa, aos austríacos a questão não lhes dizia grande coisa e os brasileiros, obviamente, não queria perder o que entretanto ganharam: independência política.
A sucessão de D. João VI era para Portugal uma questão indissociável  da reintegração do Brasil . O governo português pretendia que o Imperador D. Pedro fosse o herdeiro da coroa portuguesa porque  ao herdá-la Portugal e Brasil voltariam a estar sob o mesmo ceptro numa lógica de monarquia dual e capital política rotativa."
Notas:
* Palmela refere-se à tentativa de golpe de estado chefiada pelo infante D. Miguel conhecida como Abrilada  com o objectivo de afastar do governo todos os elementos liberais, restringir a ação política de D. João VI. e fazer da facção absolutista a dona do poder.
** Neste tempo Palmela já não era ministro dos negócios estrangeiros.
Bibliografia:
HOLSTEIN, D. Pedro de Sousa - Memórias do Duque de Palmela, trans., pref., e ed. Maria de Fátima Bonifácio. Alfragide: D. Quixote, 2010, p. 180, 181.

domingo, 4 de março de 2012

"Respeitávamos mais as classes baixas que a burguesia"

Francisco van Uden foi o primeiro da família, exilada durante 115 anos, a nascer em Portugal, e espera viver até aos 100 – como a sua mãe, neta do Rei D. Miguel, falecida há dias. Fez o curso dos Comandos e esteve na guerra de África, onde hoje tem negócios. Amante de pólo, de parapente e de caça grossa, já pescou um tubarão de 400 kg e arrepende-se de ter morto um elefante.
À chegada ao Turf Club, no Chiado, um empregado fardado de branco pergunta-nos: «Vêm ter com o D. Francisco?». À medida que nos conduz a uma sala dominada por dois grandes retratos do Rei D. Miguel, o bisavô de Francisco van Uden, vai acendendo candeeiros e aquecedores a gás. O Turf, um dos mais exclusivos gentlemen’s clubs lisboetas, tem uma decoração antiquada, com temas de caça e hípicos, e quadros, esculturas e fotografias da realeza. Conta ainda com um pátio ajardinado, semelhante a um claustro, que oferece aos seus sócios um refúgio no centro de Lisboa.

Como lida com o facto de o seu bisavô, D. Miguel, ser um Rei de má memória? Acha que foi injustiçado?
Completamente. Um homem que perdeu uma guerra, vai para o exílio sem um tostão e casa as filhas todas com as casas reinantes da altura – Bélgica, Luxemburgo, Baviera, Liechtenstein, Áustria-Hungria, Borbón-Parma, etc. – é porque aquela casa era uma casa como deve ser. Foi um santo homem. Em 1966 houve a trasladação do corpo dele da Alemanha aqui para a Sé. Antes de embarcar no avião em Munique a urna foi aberta e, perante o pasmo de toda a gente, o corpo estava intacto.

É um sinal de santidade?
Pode ser. Toda a história que conhecemos de D. Miguel no exílio foi exemplar. A guerra civil em Portugal foi muito baseada na propaganda. A maioria do povo português era contra os liberais afrancesados. Mas criou-se a chamada Quádrupla Aliança, com a Espanha ao lado, para invadir o território português. D. Miguel ainda tinha um exército muito forte e o apoio do povo, mas disse: ‘No momento em que os espanhóis cá entrarem nunca mais de cá saem. Prefiro que seja o mano Pedro a tomar conta de Portugal do que sejam os espanhóis’. Tirou os anéis dos dedos e embarcou em Sines com a roupa que tinha vestida.

E foi para onde?
Para Roma. Foi recebido pelo Papa. Os liberais e o irmão tinham-lhe atribuído uma pensão e ele chegou a Roma e disse: ‘Não quero receber nem um tostão’. E ficou sem nada. Era um grupo de portugueses que lhe mandava um donativo mensal.

E vivia simplesmente?
Com total simplicidade. Depois foi convidado pelo Metternich, o primeiro-ministro austríaco, para ir para Viena e começou a ser conhecido. Já com 49 anos, casou com uma princesa Löwenstein, teve um rancho de filhas e um filho.

O pai da sua mãe.
O meu avô, D. Miguel II. Fez carreira militar ao serviço do imperador Francisco José da Áustria. Uma irmã dele era cunhada do imperador e quando a imperatriz Sissi morreu foi ela que tomou o lugar no protocolo de Estado.

Mantém ligação com esse ramo da família?
Sim. Quando a minha mãe fez 100 anos reunimos os mais próximos. Houve um grande jantar no CCB, com 400 pessoas, e uma missa na Igreja do Bom Sucesso. O Papa mandou uma bênção lindíssima, porque a minha mãe conheceu-o quando ele era cardeal em Regensburg. Já a tinha recebido pessoalmente na sua visita a Fátima. Vieram primos de toda a Europa. Têm um respeito enorme à minha mãe porque, de facto, ela teve uma vida incomum.

E o seu pai?
O meu pai era um holandês do Sul, católico. Era um cientista brilhante. Não lhe deram equivalência ao curso de Medicina que tinha tirado em Viena, por isso voltou a tirar o curso cá e dedicou-se à investigação científica tropical. Em 1956 fundou o Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, que se tornou um dos grandes centros mundiais. Desenvolveu investigação sobre genética molecular, o que na época não era normal. Depois deu aulas na Universidade Nova e trabalhou até morrer, em 1991.

Como foi a sua infância?
Lá em casa havia um ambiente de quinta. Éramos seis filhos. Os meus irmãos andaram no S. João de Brito e iam a pé até à Trafaria e apanhavam o barco. Também fiz isso mas ao fim de algum tempo fiquei doente e depois comecei a ir às aulas da fundação [Nun’Álvares Pereira, criada pela mãe]. Fui colega daquela rapaziada que a minha mãe acolhia, 140 crianças. Ainda sou amigo de alguns. Fazia 2,5 km a pé para lá e depois no regresso o mesmo.

Pessoas de um estrato social diferente...
A maior parte eram pessoas oriundas do Alentejo que vinham à procura de emprego. Mas na minha casa habituámo-nos a dar-nos com toda a gente. Não fazíamos essa distinção.

Os outros miúdos da escola da fundação tratavam-no de maneira diferente?
Era igual. Eu andava de pé descalço, andava sempre a fazer diabruras. Quando estava na 3.ª classe comecei a faltar às aulas porque passava o dia com o pessoal da lavra e almoçava com eles. Um dia o professor disse à minha mãe: ‘Então o seu filho está doente?’. Levei uma sova terrível.

Tratava os seus irmãos por tu ou por você?
Por você. Os meus pais também.

Como é que a alta sociedade da altura via a sua mãe?
De início com alguma perplexidade, depois muita gente entendeu e começou a colaborar com ela. Outros nunca a entenderam e diziam: ‘Coitada da Sr.ª Infanta, casou com um estrangeiro, que deve ser comunista’. Ela mandava os filhos, nas férias, para o campo. Tive a sorte de passar muitas férias na Chamusca, onde montava a cavalo, toureava, caçava lebres. A partir da puberdade, íamos para o estrangeiro trabalhar para ganharmos as nossas semanadas.

Iam para onde?
Eu fui sempre para o Principado do Liechtenstein, porque tinha lá família. Ficava em casa de um amigo dos escuteiros e ia de bicicleta para uma fábrica de conservas, com imigrantes italianos, onde trabalhava 10 horas por dia. À noite mudava de roupa e ia para o castelo de Vaduz, para jantar com os príncipes reinantes, meus primos.

Como eram esses jantares?
Eram jantares de gravata. Mas em ambiente de família.

Com uma certa pompa?
Não. Nestas famílias não há pompa. Quer dizer, quando ia para casa das minhas tias Thurn und Taxis, com 8 ou 9 anos, lembro-me que o pessoal ainda usava peruca branca e fardas encarnadas nos dias de festa.

Era mesmo à antiga.
Era uma questão de tradição, porque depois o relacionamento entre os patrões e os empregados era óptimo – todos os filhos dos empregados tinham subsídio para estudar e tinham garantido um lugar na casa se quisessem.

O que fazia na fábrica de conservas?
Empacotava. Mas depois mudei para um trabalho de que gostava muito mais. Fazia a manutenção do cemitério do principado, que é a coisa mais bonita do mundo. Ficava na encosta da montanha com uma vista lindíssima sobre o vale e o rio Reno lá em baixo. Do outro lado ficava a Suíça.

Quanto ganhava?
Três francos e meio por hora, que era uma fortuna. Fui um dos primeiros a comprar uma motorizada boa, uma Zundapp, enquanto os meus amigos de famílias ricas gastavam tudo nas férias. E arranjei lá uma namorada, filha de um conde húngaro. A tia dela nunca quis sair da Hungria e esteve presa 10 anos. Quando foi solta, o pai da minha namorada pediu para eu ir ajudá-la. Ela era das famílias mais importantes da Hungria e vivia num cubículo. Quando entrei na sala fiquei com o meu coração latino aos saltos porque era uma senhora muito bonita. Convidei-a para o melhor restaurante de Buda, onde iam os dirigentes comunistas e os turistas americanos. O chefe de mesa percebeu que ela era uma senhora dos velhos tempos. Levou-nos para a melhor mesa e chamou o conjunto de violinistas ciganos, que não arredaram pé durante todo o jantar.

Desde que idade tem o bigode?
Desde os 17 anos. Mas no curso dos Comandos tive de o cortar e de rapar o cabelo.

Foi um desgosto?
Não. Na prova de choque havia um placar debaixo de um embondeiro que dizia: ‘Barbearia Palanca, não corta mas arranca’. Um dia estávamos na parada a ler o Código Comando e chamam-me. Recebi um envelope que vinha da parte do comandante. Pensei que tinha feito algo de errado. Era uma carta a dizer que devido aos bons resultados durante o curso passava a ser autorizado a usar ‘o apêndice capilar superior’ [risos]. Então deixei crescer o bigode.

Como foi parar aos Comandos?
Ofereci-me para os pára-quedistas e quando terminei os primeiros três meses fui para Lamego, para as Operações Especiais. Aí decidi oferecer-me para os Comandos. Fomos para Luanda tirar o curso de Comandos, durante seis meses, em 1971. O curso foi muito duro mas muito bem dado. Foi das organizações mais extraordinárias que conheci até hoje.

Como eram os exercícios?
O curso começava com a prova de choque. Fomos acordados com altifalantes a meio da primeira noite e tínhamos de formar em três minutos na parada. Meteram-nos em viaturas e andámos 10 a 12 horas até ao meio do mato. Quando chegámos fizemos um mini acampamento. Estávamos em Fevereiro, que é dos meses mais quentes em Angola. A prova de choque passava pela prova da sede, em que há uma actividade permanente. Tínhamos apenas um cantil de água por dia que tinha que dar para beber e fazer a barba. A prova acabava quando cerca de 60% desmaiavam por desidratação, mas tínhamos de desmaiar em pé.

Foi dos 40% que não desmaiaram?
Fui dos primeiros a desmaiar, apesar de depois ter ficado em primeiro lugar no curso. O motorista deu-me água sorrateiramente durante a noite. Só que bebi demais, transpirei imenso e perdi os sais minerais todos. O futuro furriel sofria mais, corria mais e comia depois dos soldados. O aspirante a oficial corria ainda mais. Isto tudo para que fôssemos respeitados nas hierarquias.

Acabou por ir para Moçambique.
Formámos duas companhias. Escolhi a que foi para Moçambique porque achei que o General Kaúlza de Arriaga me dava mais garantias. Começámos a formar Comandos em Moçambique. Entre os 21 e os 24 anos tive uma experiencia muito forte. Andávamos muitos dias no meio do mato às vezes quase sem água, comendo muito pouco.

Tinham de caçar para se alimentarem?
Não. Nem a boca abríamos, só fazíamos gestos. O silêncio era total e não dávamos um tiro que não fosse absolutamente necessário. Éramos uma tropa especial e do melhor que havia no mundo. Não tivemos um único morto em combate. Durante a instrução, em Angola, morreram seis, em Moçambique não tivemos nenhuma baixa.

E a sua namorada?
Ela disse que não ia esperar quatro anos. Então disse-lhe que tinha de arranjar outra pessoa porque o país estava à frente da namorada. Um dia estava no Norte de Moçambique e vi no correio uma carta para mim. Era o convite para o casamento dela.

Não se ressentiu na altura?
Não. Era um rapaz novo.

Fez mais de uma comissão.
Um dia fui chamado pelo comandante-chefe e o adjunto dele disse-me: ‘Sabe porque é que o comandante o mandou chamar? Ele vai pedir para fazer outra comissão. Não se meta nisso, vá para casa’. Era o Major Tomé da UDP. O comandante falou comigo e disse que estávamos a ganhar a guerra no mato e que tínhamos o apoio da população. Disse que precisava de tropas especiais e convidou-me para ir para o Dondo apoiar o grupo de pára-quedistas especiais africanos. Pedi-lhe 15 dias de férias para visitar a família em Portugal e voltei para lá. Fiz o curso de pára-quedista e fui coordenar as companhias de GEPs [Grupos Especiais de Pára-quedistas] de toda a zona de Tete.

Ainda estava em Moçambique no 25 de Abril?
No dia 25 de Abril fui ao bar às 10 da manhã, no comando das ZOT [Zona Operacional de Tete]. A rádio BBC estava a dar a notícia do golpe de Estado em Lisboa. Na sequência do 25 de Abril, o comandante do CIGE [Centro de Instrução de Grupos Especiais] convidou um comissário para dar aulas, onde se dizia que a Frelimo é que eram os bons e nós os maus. Foi um choque terrível. Com um grupo de oficiais da Beira definimos que manteríamos o combate para defender a população de Moçambique. As pessoas não falam nisso, mas 40% do orçamento militar do Ultramar era dedicado à acção de apoio às populações.

Mas acabou por ter de regressar.
Em Junho, o General Costa Gomes, que tinha sido nomeado comandante-chefe das Forças Armadas, foi a Moçambique e fez a espantosa declaração de que não ia haver referendo para a autodeterminação, que ia ser feita a independência e que o poder ia ser entregue à Frelimo. Entrei numa situação psicológica muito tensa. Fui convidado para um plenário do MFA e aproveitei estar com o microfone na mão para dizer tudo o que tinha a dizer. O comandante do meu regimento desatou aos gritos mas não me calei. Fui expulso e meteram-me num avião para Lisboa. Antes de embarcar, começam a chegar oficiais dos GEPs e um deles, o mais velho, oferece-me um presente e diz: ‘O nosso coração está muito contente porque o capitão vai finalmente para junto da sua família, mas e nós? Qual vai ser o nosso futuro?’. Eu tinha sido educado que um homem não chora, mas começaram-me a cair as lágrimas pela cara abaixo. Senti nos meus ombros o peso da traição profunda que Portugal estava a fazer àquela gente.

Como foi o regresso?
Cheguei cá no dia 3 de Agosto de 1974 e fui para a Caparica. Apareci em casa fardado e às tantas a minha mãe disse-me para mudar de roupa. Houve pessoas que me chamaram e disseram que o MFA estava a ser dominado pelos comunistas e que o Spínola estava cada vez mais isolado e era preciso dar-lhe apoio. Foi então que fizemos a Maioria Silenciosa. Nessa altura soube que tinha um mandado de captura por estar no activo e ter actividades políticas. Eu que passava à disponibilidade a curto prazo, quando todos eles estavam a fazer política. Era para me liquidar.

Foi aí que invadiram a casa da sua mãe?
Foi. Liguei-lhe e, como ela tinha um carregamento de estrume, foi ao meu quarto tirar tudo e enterrou no estrume. Às duas da manhã um grupo do MDP-CDE bateu-lhe à porta e revistaram a casa. Quando iam a sair a minha mãe disse: ‘O que os senhores estão a fazer aqui é pior do que a Gestapo fazia em Viena’. Como tinha o mandado de captura já não fui a casa.

Foi para Espanha.
Sim. Tive uma sorte enorme a passar a fronteira em Badajoz porque o meu nome já era um dos procurados. Quando cheguei telefonei para o príncipe Juan Carlos – ainda não era Rei. Ele disse para nos encontrarmos no dia seguinte em Madrid, e assim foi. Quando entrei na Zarzuela ele recebeu-me de braços abertos e disse: ‘Meu caro primo’. Conhecia-me mal mas recebeu-me bem.

Qual a sua actividade em Espanha?
Trabalhava numa organização clandestina com base em Espanha para apoiar o povo português que não estava com o Partido Comunista. Ajudámos o chamado levantamento popular do Verão Quente de 75, em que houve assaltos às sedes dos partidos comunistas e de extrema-esquerda.

Vinha a Portugal clandestinamente?
Claro. Passava cá a maior parte do tempo, mas cortei o bigode.

Como é a vida de clandestino?
Há um livro que se chama Dossiê do Terrorismo, das edições Avante, de 1976, que descreve dia após dia o calendário de todas as acções ‘terroristas’, ou seja, anticomunistas. Nesse livro está uma fotografia minha na estação da Campanhã que tem como legenda: ‘O Capitão van Uden, mais conhecido pelo Colombiano, momentos antes de iniciar uma operação terrorista na cidade do Porto’. Não fui preso por milagre. Detectaram-me, mas despistei-os sempre.

Quando é que vai para os Açores?
Fui convidado por um amigo para passar lá férias em 1976. Tive uma alegria suprema por verificar que havia uma parcela do território nacional onde não havia um único comunista. Era um paraíso. Namorava-se à janela às quartas e domingos e quem passasse na rua podia detectar os avanços do namoro com a percentagem do corpo do rapaz que estava dentro da janela.

Era um paraíso. Mas não havia pobreza?
Não havia a miséria que conheci nos anos 50 na Caparica.

Nessa altura começou a pescar.
Esse meu amigo tinha um barquinho de pesca desportiva de alto-mar. Como eu percebia um bocado de navegação começámos a sair com o barco e apanhávamos tubarões azuis. Ia imensa gente para o porto ver e os jornais tiravam fotografias.

Lembra-se do maior que apanharam?
Apanhámos um mako com 400 kg. Um dia uma menina do Turismo disse que receberam uma carta do editor da melhor revista de pesca da Suécia, que queria experimentar as águas dos Açores para pesca grossa. Eu levei-os a pescar. Os tipos partiram as canas todas e não pescaram nenhum atum, mas ficaram fascinados. No último dia o homem disse-me: ‘Francisco, você tem aqui hot spot mundial da pesca desportiva’.

Seguiu esse conselho?
Não queria ir para Lisboa aturar aquela gente toda. Fui ao banco e pedi um empréstimo para fazer uma empresa de pesca desportiva. O responsável do banco era um fanático por pesca desportiva. Iniciei o Big Game Fishing nos Açores, com a minha empresa, a Pescatur. Foi um êxito.

É nessa altura que conhece a sua mulher.
Em 1978 vim passar três meses ao continente e sempre que estava com alguém da minha família perguntavam-me se conhecia a Teresa. Sem eu saber, arranjaram um encontro com ela num restaurante no Chiado. Como não sabia de nada, convidei uma amiga para ir comigo. Sentei-me na mesa reservada. Passados uns minutos chega uma menina muito gira que olhou para nós e deu meia-volta. Senti que ela fugiu da mesa. Voltou mais tarde com os meus irmãos e sentou-se longe de mim e não me falou durante toda a noite, até que percebi que ela é que era a Teresa. Por volta da meia-noite fui levar a minha companhia a casa rapidamente e voltei a tempo de apanhar a Teresa lá.

Quando se casaram?
Ao fim de um ano casámos nos Açores. Foi só o núcleo mais íntimo da família. Éramos 15 pessoas, mas foi muito bonito.

Não é o casamento que se espera de uma pessoa da sua condição.
Em 1980 o ambiente em Portugal era muito apertado. Não dava para grandes festas.

Como foi a educação que deu aos seus filhos? Foi igual à que recebeu?
De certo modo, mas mais meiga que a que a minha mãe me deu.

Os seus filhos não tiveram educação militar?
Não, mas faz-lhes falta. Na minha opinião um acto vale mais do que mil palavras. Eles conhecem mais ou menos a minha vida, sabem os valores que defendo e espero ter-lhes transmitido isso. Até agora acho que sim, porque o comportamento deles só me tem orgulhado. São miúdos impecáveis. Não lhes estou sempre a ralhar.

Quando saíram dos Açores?
Em 1988, quando os meus filhos já estavam a crescer. Voltei lá pela primeira vez em Setembro do ano passado. Fui com um amigo que queria levar o filho a pescar. Pesquisei na internet e vi um barco de um skipper que trabalhou para mim. Era um miúdo vindo de Liverpool que um dia, nos anos 80, bate-me à porta. Tinha 17 anos e tinha fugido de casa porque tinha visto um artigo numa revista. A minha mulher ligou logo para a mãe dele. Dei-lhe emprego e hoje é o melhor skipper de todo o Norte do Atlântico.

Depois mudou de ramo de negócio.
Sim, radicalmente. Fundei uma empresa de imobiliário, estávamos no início do boom imobiliário. Durou de 1988 a 1991.

Que tipo de casas vendia?
Eram sobretudo projectos de reconstrução de prédios em Lisboa. Por exemplo, os Terraços de Bragança, que era uma fábrica de cerveja, fui eu que vendi ao Grupo Mello. É um bocado incómodo viver lá dentro. Consegui, mesmo assim, que o Siza Vieira fizesse estacionamentos para todos os habitantes. O Siza é bom para as volumetrias, mas não sabe o que é ter uma família.

Nessa altura ganhou muito dinheiro?
Fui ganhando para viver como deve ser e os miúdos estarem em boas escolas.

Como conheceu o André Jordan?
Em 1991 houve um sueco que me convidou para jogar pólo na Quinta da Marinha. Gostei imenso e comecei a jogar. Um dia houve um jantar de pólo e aparece um senhor com sotaque brasileiro que disse que tinha gostado de me ver jogar. E disse que sabia que eu estava ligado ao ramo imobiliário. Era o André Jordan. Passado um minuto perguntou se queria trabalhar com ele no futuro Belas Clube de Campo.

Quando deixaram de trabalhar juntos?
Há cerca de cinco anos, o meu amigo Jorge Ferro Ribeiro perguntou-me se queria trabalhar com ele. Fui ao gabinete do André Jordan e contei-lhe que ia fazer 60 anos e queria fazer projectos em África. Aquela história quando saí da Beira, em 1975, a escorrer lágrimas, esteve sempre na minha cabeça. Despedimo-nos afectuosamente e fui trabalhar com a Geocapital. Neste momento estou com projectos na Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Estamos a concentrar-nos em tudo o que seja banca, energia, agro-indústria e infra-estruturas.

Uma grande mudança de ramo. Começou na pesca, depois imobiliário e turismo…
Sim e estou a ter algum êxito. Também fiz uma fábrica de descasque e empacotamento de caju em Bolama, na Guiné, juntamente com o meu amigo Alpoim Calvão. Tem 250 postos de trabalho.

A fábrica é rentável?
Vai pagando as despesas, mas ainda não tirámos de lá dinheiro nenhum. Damos 10% dos resultados para um fundo de apoio aos antigos combatentes. Também apoiamos alguns jovens com bolsas de estudo.

E em Angola, o que está a desenvolver?
Um projecto de habitações sociais que são kits de auto-construção. A burocracia tem sido difícil, mas acho que vamos conseguir.

Portugal vive tempos difíceis. Acha que poderia voltar a ser uma monarquia?
As repúblicas implantam-se com golpes de Estado e assassínios – foi o que aconteceu em Portugal, nunca foi referendada. As monarquias só podem ser restauradas ou instauradas com uma grande onda popular. Neste momento não creio que a monarquia ganhasse. Mas se a situação piorar vai-se questionar o regime.

Algumas pessoas ainda pensam na monarquia como absolutista?
Há falta de informação, mas as pessoas já sabem que todos os países de maior sucesso na Europa são monarquias, onde há mais liberdade que nas repúblicas. Com excepção da Arábia Saudita e mais um ou outro caso, todas as ditaduras no mundo são repúblicas.

São ricos graças à monarquia ou mantêm-se monarquias por serem ricos?
São países que não tiveram razão nenhuma para mudar de regime. A Rainha de Inglaterra é Chefe de Estado de 16 países no mundo inteiro! Nenhum Presidente o conseguiria ser. Sempre que há uma eleição do Presidente, o país divide-se a meio. Será esse o bom início de uma chefia de Estado?

Mas acha sequer concebível um regresso à monarquia? Não é uma página na História que já foi virada?
As três repúblicas que tivemos em Portugal não foram grande coisa. A primeira república foi um desastre total, a segunda foi uma ditadura, e a terceira é aquilo que se vê. Se é isto que a gente quer…

Há quem defenda que a sua mãe seria a herdeira legítima do trono. Porquê?
Talvez por, até há uns dias, ser a única neta do Rei D. Miguel. Mas o irmão dela, D. Duarte Nuno, era o filho varão e foi o pretendente aceite quer pelos liberais quer pelos tradicionalistas no acordo de Dover.

Caso o seu primo não se casasse seria você o chefe da Casa Real?
Perguntei isso uma vez. Em princípio, se ele não tivesse filhos, passaria por mim.

Como é que ele viu isso?
Entretanto casou. Na nossa família casamos muito tarde. Por isso é que a minha mãe era neta de D. Miguel. São 210 anos em três gerações.

E como teria assumido essa responsabilidade caso D. Duarte não tivesse casado?
Enquanto fosse vivo ele seria o Chefe da Casa. O que eu teria de fazer era preparar os meus filhos. Uma coisa é educar um miúdo normalmente, outra coisa é educá-lo para essas funções. Tem de viajar, aprender línguas e ter outros contactos.

D. Duarte encarou isso como alguma quebra de lealdade?
Houve intrigas, como há sempre. Mas tivemos uma conversa a três – a minha mãe, ele e eu – e a coisa ficou esclarecida, porque eu não tenho a mínima vontade de assumir essas funções, que são terríveis. Ser chefe de uma casa real numa república é a pior coisa que pode haver. Tem as responsabilidades todas e não tem o exercício. Ele é um homem sacrificado uma vida inteira.

Um dos seus passatempos é a caça.
Ainda caço, mas cada vez atiro menos. Já não atiro nos troféus grandes. Nas férias ia a África todos os anos para caçar, na Tanzânia. Quando a guerra terminou em Moçambique comecei a ir para lá.

Qual foi o maior animal que já matou?
Foi um que jurei que nunca mais caçava, um elefante, em Moçambique. Andava a destruir as machambas da população e o Governo pediu para ser abatido, mas fez-me imensa impressão.

Também faz parapente. Desde quando?
Tive um acidente em Évora a fazer pára-quedismo. Distraí-me com a paisagem e ia caindo nuns fios de electricidade. Aterrei a grande velocidade e acabei por me magoar na coluna. Em 2004 aprendi a fazer parapente com motor. É muito mais perigoso que o pára-quedismo, mas é muito mais simpático em termos físicos.

Também é presidente da Associação Portuguesa de Pólo. É um jogo elitista?
Assim-assim, mas é muito mais caro ter um barco na doca do Bom Sucesso. Não se discute se as pessoas têm um iate, mas se tem quatro ou cinco cavalos e joga pólo…

Até quando pensa trabalhar?
Como não tenho esperança que o Estado me pague uma pensão até morrer, e como espero viver até aos 100 anos, vou continuar a trabalhar enquanto tiver capacidade para isso. Enquanto puder jogar pólo também posso trabalhar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

SAS a Infanta ADELAIDE DE BRAGANÇA, tia de SAR Dom Duarte de Bragança e a única neta viva do rei D. MIGUEL, faz hoje 100 anos

" A morte é uma transição, é como se fosse ao Brasil ou à Indonésia, se eu fosse à Austrália durante 5 anos era muito mais longe.
A Minha fé facilita muito o fim da vida, porque o caminho é claro.
Se morrer hoje eu sei concretamente qual é o meu futuro.
A questão de se ter duvidas é a dificuldade de não se saber bem o que é que vai acontecer.
Ter fé facilita muito o fim da vida"

( SAS A Infanta Dona Maria Adelaide de Bragança no dia dos seus 100 anos)

 O Senhor Embaixador Pinto da França condecorando em nome do Senhor Presidente da Republica a Senhora Infanta
O Discurso do Senhor Embaixador António Pinto da França, representante do Senhor Presidente da Republica
 
É conhecida como a infanta rebelde. Nasceu há 100 anos em St. Jean de Luz, em França, filha de D. Miguel de Bragança e da princesa Teresa de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg. A infanta, a pessoa mais velha da família Bragança, vai ser hoje homenageada e distinguida com a medalha da Ordem de Mérito Civil.
A infanta Adelaide de Bragança van Uden, viúva do médico holandês Nicolaas van Uden, é tia paterna do duque de Bragança e a única neta viva do rei D. Miguel I de Portugal.
Com o título de Sua Alteza Sereníssima, a infanta pautou a sua vida pelo serviço e o amor ao próximo. Viveu duas guerras mundiais e participou ativamente na resistência nazi. Foi presa e condenada à morte por fuzilamento.Salazar interveio em seu auxílio e reclamou a sua libertação. Criou a Fundação D. Nuno Álvares Pereira para prestar apoio a mães carenciadas.
A vida da princesa é contada no livro "A Infanta Rebelde" de Raquel Ochoa, editado pela Oficina do Livro.
Fonte: VIP