Mudar o regime Servir Portugal

Manuel Beninger

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sábado, 1 de junho de 2013

Amélia de Orléans e Bragança, a última rainha de Portugal

Aos 21 anos, Maria Amélia de Bourbon-Orléans torna-se duquesa de Bragança, mulher do futuro rei D. Carlos. É a filha do conde de Paris, Luís Filipe de Orléans, o pretendente ao trono.
Aos 21 anos, Maria Amélia de Bourbon-Orléans torna-se duquesa de Bragança, mulher do futuro rei D. Carlos. É a filha do conde de Paris, Luís Filipe de Orléans, o pretendente ao trono. Amélia pertence à alta linhagem europeia, antes D. Carlos revelara um grande entusiasmo pela infanta Eulália de Espanha, filha da rainha Isabel II, a infanta achou mais graça a um diplomata da Legação portuguesa, o projeto de casamento foi abandonado. Encetaram-se conversações com os Orleáns, Amélia e Carlos casaram em Lisboa em 22 de Maio de 1886. Em breve será a rainha de Portugal e a quem, perdido o marido e os dois filhos, deambulando de corte em corte, alguém chamará “uma tragédia ambulante”. É esta a biografia que acaba de ser publicada: “Rainha D. Amélia, uma biografia”, por José Alberto Ribeiro, A Esfera dos Livros, 2013.
É um livro novo, surpreendente e que deita por terra alguma mitologia em torno da última rainha de Portugal. O autor, que se doutorou com uma tese dedicada a esta rainha e à sua obra mecenática e artística, teve a oportunidade de consultar os diários de D. Amélia que esta mandara queimar, instrução que não foi respeitada e que veio permitir um olhar renovado sobre um reinado e uma época. Quando os duques de Bragança se consorciam já o rei D. Luís sofria de graves problemas de saúde. D. Carlos será aclamado rei em 28 de Dezembro de 1889, está em desenvolvimento um processo tumultuoso, o novo reinado irá começar mal. Logo no início de 1890, o governo inglês impôs a Portugal um ultimato para desocupar os territórios entre Angola e Moçambique, em 24 horas. Cresce a contestação ao jovem rei, a oposição republicana encontro um excelente pretexto. Igualmente no início de 1891 ocorre a insurreição republicana do Porto. Em Maio desse ano, a crise financeira do Brasil arrasta Portugal para uma grave crise monetária. No seu diário regista as tensões com o marido e releva uma relação extremamente afável com a sogra, isto quando se dizia que mal se podiam ver. Em 1892, é iminente a situação de bancarrota, o rotativismo parlamentar e governamental dá provas de ineficácia. A rainha tudo vê e anota, a sua intervenção é na área assistencial, caso do Real Instituto de Socorros a Náufragos e o Instituto Bacteriológico. As agitações ministeriais tornam-se prática corrente, os governos por convite sucedem-se. De acordo com o seu diário, as tensões com o rei tornam-se cada vez mais frequentes, o monarca passa largos períodos nas suas propriedades e em longas viagens pelo estrangeiro. Em 1895 ficou marcado por vários sucessos militares de ocupação colonial, Mouzinho de Albuquerque capturara Gungunhana, chefe dos Vátuas, em Chaimite, foi um ponto alto no orgulho nacional.
Embora levando uma vida distante, as rotinas familiares continuam a ser cumpridas, o casal aparece sempre em público nos seus deveres de Estado. D. Carlos bem tenta o seu magistério de influência junto dos partidos, alternância entre Regeneradores e Progressistas encaminha-se para o descrédito absoluto. O rei afasta-se, envolve-se nas campanhas oceanográficas, a rainha refugia-se no Palácio da Pena e depois acompanha o marido em visitas pelo país. É neste contexto que a rainha dá um passo para consolidar a sua obra assistencial, a criação da assistência nacional aos tuberculosos com várias direções: construção de hospitais marítimos, sanatórios em clima de montanha e de altitude, institutos para o tratamento da tísica e hospitais para tísicos, destinados aos incuráveis. Assim irão surgir os sanatórios de Outão e Carcavelos e já no século XX o dispensário antituberculoso de Lisboa. Nos seus recreios, a pintura foi uma das suas distrações mais intensas.
Com o seu enorme prestígio, D. Carlos atrai a Lisboa monarcas de toda a Europa bem como o presidente da República francesa. A rainha cumpre exemplarmente as suas funções, granjeia amizades. Mais tarde, correrá a notícia da sua coragem quando salvou um pescador nas águas de Cascais. Uma coragem tremenda que irá comprovar na tarde do regicídio, brandindo um ramo de flores frente aos regicidas. O novo século revelara-se explosivo, do lado monárquico abundam as dissensões, os arrufos, os compadrios e os escândalos; a corrente republicana não para de engrossar. Os monarcas procuram a todo o transe manter a sua popularidade em dia, em 1901 viajam à Madeira e aos Açores, as receções revelaram-se apoteóticas.
Os rumores e as calúnias à volta da rainha também cresciam: que Mouzinho de Albuquerque se matara por não ver o seu amor à rainha reconhecido; que a rainha tinha relações lésbicas avulsas e perdulárias, havia mesmo um caso com a condensa de Figueiró… a rainha realiza uma viagem pelo mediterrâneo, faz-se acompanhar dos filhos, a bordo do iate Amélia. Chegara o tempo das visitas ilustres: Afonso XIII de Espanha, depois partem para Inglaterra, foi assinado em Windsor um novo tratado luso-britânico, tratado que renovava a garantia inglesa em relação à integridade dos territórios ultramarinos de Portugal; depois é a vez da família real e inglesa visitar Portugal, segue o imperador da Alemanha, Guilherme II e no final do ano de 1905 Émile Loubet, o presidente da República francesa.
Em 1906, descobriu-se a doença que atormentava o rei, a diabetes. É um ano de uma inusitada instabilidade governativa e social que deixou o país num estado crítico. A rainha continua voltada para as suas preocupações assistencialistas e para a educação dos filhos. Em 1907, D. Carlos ensaiou um governo autoritário sob a égide de João Franco, a classe política não tolerou, a impopularidade do rei aumentou, chegara a hora das grandes conjuras. No regresso de uma estadia em Vila Viçosa, mal chegado a Lisboa, em 1 de Fevereiro de 1908, D. Carlos e o príncipe herdeiro são assassinados. D. Amélia centra-se na preparação do filho mais novo, desenvolve esforços para enfrentar a tempestade política. Socorrendo-se sempre dos diários da rainha, o autor desvela a natureza dos cuidados que ela põe na preparação do filho, temos aqui uma nova luz sobre os acontecimento do 5 de Outubro e atos posteriores, onde se procurava justificar a fuga para o exílio são dadas razões de grande determinação do jovem rei e uma enorme indecisão dos políticos e militares que se tinham revelado fiéis à monarquia. Há igualmente as diligências de D. Amélia para encontrar uma consorte para o filho, a revolução do 5 de Outubro ultrapassou as iniciativas em curso.
E temos a rainha no exílio, primeiro a Inglaterra e depois em França. D. Manuel II casa, reacendem-se as esperanças, D. Amélia participa como enfermeira durante a I Guerra Mundial, o reinado do filho prossegue sem a chegada de um herdeiro, chegava a hora de estabelecer relações com parentes outrora odiados, os descendentes de D. Miguel I. inesperadamente, em 1932, D. Manuel morre, começa a “tragédia ambulante”, D. Amélia visita tudo e todos, negoceia com Salazar a questão dos bens da família real. Vem a guerra, D. Amélia não abandona a França mortificada. Finda a guerra, a convite de Salazar, visita Portugal onde é acolhida entusiasticamente. Volta para França, aqui falece em 1951. Terá solenes exéquias decretadas por Salazar, fica no Panteão dos Braganças, ao lado do marido e dos filhos. As suas últimas palavras foram: “Levem-me para Portugal, adormeço em França mas é em Portugal que quero dormir para sempre”.
A rainha que prezava o exercício físico, a mente sã em corpo são, que assistiu impotente a grandes transformações políticas se bem que procurando agir com fervor no campo da assistência, a rainha que invocava constantemente o dever que cabe aos reis de estar junto dos seus povos, cumpriu o que Salazar lhe pediu, legou os seus bens portugueses a D. Duarte Nuno e sua família. Nunca esqueceu o terno acolhimento que lhe foi oferecido na sua última viagem a Portugal, em 1945.

Leitura obrigatória para melhor compreender um reinado trágico e a tragédia de um exílio.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

D. Amélia - Momentos em família

D. Amélia possuía uma beleza pessoal inquestionável
D. Amélia em 1905
Nas imagens de cima: O Rei D. Carlos e D. Amélia ainda noivos. 
D. Amélia era tão alta (cerca de 1.80 descalça) que normalmente tiravam as fotografias com ela sentada.
casamento real aconteceu no dia 22 de Maio de 1886 na igreja de São Domingos em Lisboa.
Constando do programa uma série de recepções no paço, jantares e bailes de corte, récitas de gala nos teatros, tourada á "antiga portuguesa" na praça do Campo de Santana (foi inaugurada em 31 de Julho de 1831), duas corridas de cavalos no hipódromo de Belém, uma quermesse no Jardim Zoológico e um sarau no Real Ginásio Clube Português, etc.
Dona Amélia e o seu séquito composto por 57 pessoas, havia chegado a Portugal dois dias antes à estação de Santa Apolónia, ficando depois hospedados no paço das Necessidades.
Muita gente da província, veio a Lisboa para assistir ao casamento real, mas o povo poucas vezes teve oportunidade de ver o casal, exceptuando a passagem dos coches pela ruas de Lisboa.
A única cerimónia ao ar livre foi uma parada militar no dia 25 de Maio.
Só a selecta assistência no teatro S.Carlos pode ver a Princesa Dona Amélia de perto, no dia em que se ouviram o primeiro acto da ópera Semiramis e dois actos da Aida de Verdi, ou a que esteve presente no baile de gala no dia 28 do mesmo mês.
Como quase sempre em Portugal, o aspecto financeiro é um factor importante, sobretudo quando se vive com dificuldades o que era manifestamente o caso, tanto assim que Dom Luís havia considerado a hipótese de adiar o casamento, devido ao aperto financeiro existente, pois o parlamento havia disponibilizado menos dinheiro do que o havia concedido para o casamento de Dom Luís, a quantia de 107 contos.
Os jovens príncipes foram viver para o palácio de Belém, em frente ao Tejo, construído por Dom João V na primeira metade do século XVII e que servia até essa altura para hospedar visitantes a Lisboa.
Aqui nasceram os seus filhos, Dom Luís Filipe e Dom Manuel II, que foram baptizados na capela palatina, bem como um parto prematuro de uma infanta de nome Maria, que não sobreviveu.
A vida "modesta" a que foram obrigados a viver com um magro orçamento de 40 contos anuais, não impediram que umas "obrinhas" em casa tenham sido feitas, contratando os grandes pintores da época como Columbano Bordalo Pinheiro e José Malhoa para decorar algumas salas.
elegância da Monarca Portuguesa. A mais bonita e alta da Europa.
Em cima: D. Amélia (já mais velha) Rainha de Portugal, após o assassinato do seu marido.

Em baixo: D. Amélia com o seu filho o Rei Dom Manuel II, em 1910.
Em meados de 1907, o seu irmão mais velho e herdeiro do trono de Portugal,visitou Moçambique. O duplo assassinato do seu pai e do seu irmão Luiz Filipe seis meses mais tarde colocou Manuel no trono.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Acção no exílio de D. Manuel II "foi maldosamente escondida"


O historiador Fernando Amaro Monteiro afirmou que a acção no exílio do rei D. Manuel II, falecido há 80 anos, "foi maldosamente escondida", quando até contribuiu para o reconhecimento do Governo republicano pelo Reino Unido.
Fernando Amaro Monteiro falava à Lusa a propósito da apresentação da obra "D. Manuel II e D. Amélia. Cartas inéditas do exílio", na quarta-feira, às 18 horas, no salão nobre da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa.
O investigador afirma que a figura e acção de D. Manuel II no exílio foi "deliberadamente escondida, e isso é claramente demonstrado neste livro", editado pela Estampa.
"Há uma certa maldade ao não se mencionar, de propósito, a acção do Rei no exílio, como por exemplo o ter conseguido o reconhecimento do Governo português saído da revolução de 28 de maio de 1926, em dois dias e meio, o que é uma coisa extraordinária. É o próprio Governo da República que lhe pede a intercessão", sublinhou.
O investigador salientou a figura do monarca como "bibliófilo de nomeada internacional", e a sua "enorme tarefa desenvolvida na Cruz Vermelha inglesa, durante a I Grande Guerra, muitas vezes em prol dos soldados portugueses, como a criação de um pavilhão português num hospital militar em Paris, e isto tem sido escondido", afirmou.
O livro, coordenado por Amaro Monteiro, traz a lume 152 documentos, na maioria inéditos, e resulta de uma recolha de um fundo documental da Fundação D. Manuel II que só veio para Portugal em 2001, "por determinação expressa de D.ª Augusta Victoria de Hohenzollern-Sigmarigen, viúva do monarca".
Destes 152 documentos, 57 são cartas remetidas pelo rei e outras 64 endereçadas a si. Há ainda seis cartas remetidas pela mãe, a rainha Dª Amélia, viúva de D. Carlos, e 21 dirigidas à soberana, que entretanto fora residir para os arredores de Paris. Há também telegramas tanto para D. Mnauel II como para sua mãe.
Em termos cronológicos, a correspondência régia publicada vai de 1910 a 1945. Entre as várias personalidades com as quais houve troca de missivas, refira-se o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, o cardeal-patriarca de Lisboa Manuel Gonçalves Cerejeira e o presidente do conselho de ministros, António de Oliveira Salazar.
Numa carta dirigida a Salazar, D. Manuel II dá conta da sua "admiração" que "tem crescido perante a obra admirável" do então homem forte de Portugal.
Fernando Amaro Monteiro disse à Lusa que, no início, D. Manuel II admiraria a governação de Salazar, mas depois veio a desiludir-se, e "na última carta é fortemente crítico do que se passava na sociedade portuguesa".
Oliveira Salazar, afirmou o investigador, "iludiu os monárquicos e também o rei com a possibilidade da restauração da monarquia", pelo menos de princípio, "mas fazia parte da sua estratégia".
"A rainha [D.ª Amélia], por seu turno, não. Nunca esperou a restauração da dinastia", sentenciou.
O investigador afirmou que "um rei seria complicado, pois Salazar não o podia despedir como fez com o Presidente da República, o general Craveiro Lopes, e D. Manuel II era uma personagem inquietante". Segundo Amaro Monteiro, "convinha a Salazar tratar a Casa Real e os monárquicos com uma atitude de deferência e de esperanças sempre dilatadas, e assim não encarar de frente um problema real que eram os bens da Casa de Bragança, que foram açambarcados em espírito de confisco pela Fundação da Casa de Bragança, após a morte de D. Manuel II".
"Convinha [a Salazar] manter os Bragança numa certa precariedade, numa modéstia prateada que nem chegava ser dourada", acrescentou.
A obra levou cerca de três anos a organizar e, além da transcrição das cartas, inclui um índice onomástico, em que são contextualizadas todas as personagens referidas nas cartas ou que são remetentes ou receptores das missivas régias.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Príncipe Luís Filipe de Bragança - O Príncipe ESQUECIDO


Comemora-se hoje, dia 21 de Março, o nascimento do Príncipe Real Dom Luiz Filipe, a Esperança do Reino de Portugal! O Príncipe que queria ser Rei! 

Breve Resumo de Sua Fidelissima Majestade Herdeira ao Trono de Portugal Príncipe Real Luís Filipe de Bragança....não será melhor o Cognome de Príncipe Real Esquecido!!
LISBOA PALÁCIO DE BELÉM, 21 de Março de 1887
Por toda a Cidade de Lisboa Ouve-se o Eco de Salvas de Canhão, nascia um Príncipe.O Príncipe Real Dom Luís Filipe de Bragança
Apresentação do primeiro filho da Familia Real Portuguesa ao mundo
O Príncipe Real, Dom Luís Filipe ao colo da avó, a Rainha Senhora D.Maria Pia À direita de ambos está D.Amélia (ainda Duquesa de Bragança) e o Rei D.Luís I. Atrás, o terceiro a contar da esquerda encontra-se D. Carlos I de Portugal.

Nasceu e cresceu no seio de uma Família Real carismática, unida, cooperante, harmoniosa e agradável.
Amado era o menino Querido da avó....a Rainha D. Maria Pia. Como prova encontra-se no fim deste texto uma foto carinhosa entre avó e neto que daria origem a uma pintura de Enrique Casanova....pintor da corte.
O retrato celebre pela cumplicidade entre a Rainha D. Maria Pia e o seu Neto Luiz Filipe
2 anos mais tarde nacerá o seu irmão o Infante D. Manuel!
Contudo o ambiente da época foi alvo de acontecimentos socias e politicos hostis e muito conturbados. No dia em que nasceu D. Manuel, 15 de Novembro foi deposto no Brasil o seu parente D. Pedro II de Bragança. Mau prenúncio....
A mãe....a Rainha Senhora Dona Amélia que sempre teve com os Príncipes uma relação de muita cumplicidade e ternura, como seria natural.... Preocupada emn dar educação esmerada e como convinha a Príncipes do séc XX....os preceptores reais orientaram os Príncipes em Literatura Portuguesa, Filosofia, direito, geografia, história, matemática, topografia, balística e táctica e ainda em literatura, geografia e filosofia da história alemã.
Príncipe Real Dom Luiz Filipe, envergando calça comprida, bota de polimento e cartola, numa idade em que isso seria impenssável para qualquer outra criança 1900.
Príncipe Dom Luiz Filipe com o uniforme do Colégio Militar 1900, tinha apenas 13 anos.
No ano de 1900, quando Dom Luís Filipe tinha 13 anos, a sua educação foi confiada a Mouzinho de Albuquerque, o herói das Guerras de África. Este ensinou-lhe o sentido da disciplina e os conhecimentos militares, áreas pelas quais o Príncipe revelou ter Aptidão natural.
O Príncipe que queria ser Rei
Dom Carlos I e Dom Filipe.
No ano de 1901, no 25 de Maio, Dom Luís Filipe foi jurado herdeiro do trono de Portugal.
O Príncipe que queria ser Rei
Dom Luís Filipe revelou ter uma personalidade Forte, determinada, carismática e Divertida!
O Príncipe herdeiro assistia regularmente às Sessões no Parlamento e foi desde muito cedo convocado para funções oficiais.
Era um Príncipe herdeiro excelentemente qualificado, nele residiam Todas as Esperanças de um Portugal menos SOFREDOR, de um Reino Luminoso e Próspero!
Príncipe Real D. Luiz Filipe
O ano de 1907 foi especial para Dom Luís Filipe de Bragança, porque nesse ano realizou uma viagem oficial a África com o objectivo de reafirmar os direitos dos Portugueses à posse das colónias.
"Ver e conheçer o que é nosso e os lugares onde fizemos tão grandes coisas" D. Luís Filipe
Benguella. Ponte-Caes, Desembarque do Príncipe Real D. Luiz Filipe
Sua Alteza Real Dom Luiz Filipe de Órléans e Bragança, Príncipe da Beira, na residência do Governador-Geral na Ponta Vermelha em Lourenço Marques, no dia 2 a Agosto de 1907
A visita de Luiz Filipe, herdeiro da coroa, às colónias portuguesas de São Tomé, Moçambique, Angola e Cabo Verde, decorreu entre 1 de Julho e 27 de Setembro de 1907 e foi essencialmente um exercício de relações públicas e afirmação de soberania perante os demais poderes europeus.
Tirando as expedições reais a Marrocos no século XV, foi a única vez que um membro duma família real portuguesa esteve em África.
O nome original da cidade de Pemba, Porto Amélia, era o da sua mãe, Amélie de Órléans, a rainha portuguesa e uma francesa pertencente à Casa de Órléans, cujo pai era o pretendente à coroa francesa. Quando ela se casou aportuguesou o nome próprio para Amélia.
A cidade moçambicana da Beira ainda hoje tem o nome de um dos títulos de Dom Luiz Filipe, cujo nome completo era (ok cá vamos nós) Luís Filipe Maria Carlos Amélio Vítor Manuel António Lourenço Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Bento de Bragança Saxe – Cobourg-Gotha e Orléans.
Para além de Príncipe da Beira (neste caso da província portuguesa da Beira) ele tinha ainda os títulos de Duque de Bragança e da Saxónia, Duque de Barcelos; Marquês de Vila Viçosa; e Conde de Arraiolos, de Barcelos, de Neiva e de Ourém. Foi Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e foi ainda Cavaleiro da Ordem da Jarreteira.
Luiz Filipe veio para Lourenço Marques, de onde seguiu para vários pontos da costa moçambicana e depois visitou ainda a África do Sul e a (então) Rodésia, onde deu dose de charme aos ingleses e aos boers.
Mousinho de Albuquerque, conhecido pela prisão do régulo Gungunhana em Chaimite no dia de Natal de 1895, foi nomeado aio (preceptor) de Dom Luiz em 1898. O príncipe tinha 13 anos de idade. Em Janeiro de 1902 Mousinho cometeu suicídio.
O herdeiro da coroa portuguesa na cerimónia de lançamento da primeira pedra da primeira câmara municipal de Lourenço Marques, a 2 de Agosto de 1907
jornal da Época
A Bordo do Navio "África" com a comitiva, foi o primeiro membro de uma familia real europeia em visita oficial a África.
Claro que os nossos Republicanos da época trataram de subverter a ideia da viagem....alegando excessivos e desnecessários os gastos da viagem aquele território!!! Eram espertos.....hoje é dos locais mais ricos do Mundo!!
A viagem que o Príncipe Dom Luiz Filipe fez às colónias em 1907 com Paiva Couceiro.
Regressou a Portugal, a fins de 1907. Mal sabiam que tendo escapado às perigosidades e instabilidades de África, iria acontecer pouco depois, Uma Tragédia Terrível que iria Abalar Toda a Família Real, o REINO DE PORTUGAL e os restantes Reinos, com os quais a Família Real Portuguesa tinha ligações de parentesco e afinidades.
O Príncipe Real, sabendo das ameaças de morte a D. Carlos I, andava sempre armado de revólver, jurando sempre que o matariam primeiro a ele antes que ele deixasse matar o seu Pai e seu Rei.
Dom Luiz Filipe com o uniforme de gala da Marinha.
E de facto, os relatos dizem que antes de morrer ainda atirou a um dos Regicídas, matando-o mesmo.
1 de Fevereiro de 1908.
A última fotografia do Rei D. Carlos, captada quando, acompanhado pela rainha D. Amélia, desembarcava na estação de vapores sul e sueste, às 5h da tarde, poucos minutos depois antes do atentado.
D. Amélia, D. Carlos I e D. Luis Filipe
El-Rei D. Carlos I e o seu Herdeiro D. Luis Filipe
Martires de um acto selvatico de cobardia, os infâmes conseguiram derramar o sangue nas Ruas!!
Neste dia morreram mais pessoas inclusive espectadores inocentes que assistiam à passagem da família real, do que em todo o Reinado de El-Rei Dom Carlos I de Portugal!
Um acto de terrorismo sem precedentes sem Portugal.
A dor de uma Rainha que se viu desde muito cedo rodeada pela morte. Chora sobre o leito do seu filho e marido.
O último olhar sobre o seu povo a sua cidade do Rei D. Carlos I e do legitimo herdeiro Luiz Filipe
O Desepero de uma mãe e Esposa impotente pelo poder das armas em mãos assassínas...
21 de Março de 1887 a 1 de Fevereiro de 1908 " O Rei que não Reinou"
A dor de uma mãe e o sofrimento de um irmão que viu à sua frente morrer o seu irmão...
O Resultado Final
O Resultado Final

Quando a vila de Fafe recebeu el rei

Jornal “Diário do Minho” de 19 de Março, pág. 10

Uma enorme multidão encheu ontem por completo a praça central de Fafe, para receber a comitiva real, encabeçada por el rei D. Carlos e a esposa, a rainha D. Amélia, os fidalgos e demais pessoal da casa real.
Estávamos no início do século XX: Portugal ainda era uma monarquia e Fafe vila. Essa época foi ontem recriada, para assinalar as visitas que o rei D. Carlos fez ao município de Fafe, em 1906 e em 1907.
Tratou-se de um dos momentos mais altos do programa da terceira edição das Jornadas Literárias de Fafe, iniciativa que começou no passado dia 9 e se prolonga até dia 24, movimentando milhares de pessoas, das freguesias, escolas e movimentos associativos do concelho, num vasto conjunto de iniciativas culturais.
Apesar do frio e dos aguaceiros (de curta duração, mas intensos), a multidão não arredou pé para ver de perto e saudar, efusivamente, as mais ilustres figuras do reino de Portugal, participando da melhor forma no espírito desta iniciativa, que procurou evocar a memória dos antigos e ensinar aos mais novos as datas e nomes mais importantes do concelho de Fafe.
A família real surgiu na varanda do imóvel conhecido como a Casa dos Brasileiros.
D. Carlos e Dona Amélia foram apresentados por Arthur e Florêncio Vieira de Castro, figuras ilustres da vila de Fafe nos últimos anos da monarquia, tendo ocupado cargos políticos de relevo naquela época, em Fafe e em Lisboa.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um Herói no esquecimento: O Capitão Júlio da Costa Pinto.

Cai nas mãos da cambada. Defende-se com loucura, à espadeirada. Um Oficial Superior da Armada (o Comandante Afonso de Cerqueira) olha para aquela valentia quase sobrenatural, reconhece quem é e intervém. Exige aos seus homens e à turba respeito pelo “herói de África”, conforme invoca. “Este homem é um valente! Tem direito à nossa consideração!”. Vai ao encontro de Costa Pinto; toma a iniciativa militarmente inusitada de ser ele (Capitão de Fragata) a prestar continência ao Capitão; não aceita a espada que o outro lhe estende. E um cavalheiro. Como aliás com Ayres de Ornellas e João de Azevedo Coutinho, a quem também rende continência e trata com a maior deferência.
Mas Costa Pinto desvaira. Parte a espada e espezinha-a no chão:
“Só serviu o Rei!”.

Demitido de Oficial do Exército quando Tenente de Infantaria, em 1911, “a bem dos superiores interesses da República”, conforme a folha oficial (apesar de proposto em 1910 para a Torre e Espada, pelo seu desempenho heróico em combate no Sul de Angola); readmitido em 1919 como Capitão, por escassos dias, pela Junta Governativa do Reino, aquando da Monarquia do Norte, e, óbvio, restituído à situação anterior logo de seguida. Foi a sua brevíssima reaparição em uniforme: para combate. Apresentava-se pois socialmente apenas com os apelidos, sem alusão a patente alguma. E nunca requereu a reintegração, como por mais de uma vez lhe foi oferecido no Estado Novo.
O Hastear da Bandeira em Monsanto, 1919
Todavia, ficou para quase toda a gente, até morrer, “o Capitão Costa Pinto”, dados o passado em África, a valentia que o celebrizou nos combates em Monsanto e a atitude estóica e indomável com que suportou, dali até ao Arsenal de Marinha, as vaias e múltiplas agressões do “povo unido”. Depois de estar montado a cavalo 48 horas, quase sem comer, agarra-se a uma metralhadora e cobre com ela, até esgotar as munições, a retirada dos seus homens. Usa então a pistola e conta os tiros. Já estavam a metros as forças da Marinha e, sobretudo, a massa ululante do “poder popular” do tempo… Reservara o último tiro para ele. Senta-se num tronco de árvore, aponta à têmpora e dispara. Mas, espantosamente, o fulminante não percutiu!
Cai nas mãos da cambada. Defende-se com loucura, à espadeirada. Um Oficial Superior da Armada (o Comandante Afonso de Cerqueira) olha para aquela valentia quase sobrenatural, reconhece quem é e intervém. Exige aos seus homens e à turba respeito pelo “herói de África”, conforme invoca. “Este homem é um valente! Tem direito à nossa consideração!”. Vai ao encontro de Costa Pinto; toma a iniciativa militarmente inusitada de ser ele (Capitão de Fragata) a prestar continência ao Capitão; não aceita a espada que o outro lhe estende. E um cavalheiro. Como aliás com Ayres de Ornellas e João de Azevedo Coutinho, a quem também rende continência e trata com a maior deferência.
Mas Costa Pinto desvaira. Parte a espada e espezinha-a no chão:-”Só serviu o Rei!”. O poder popular (a alfurja, os rufiões de navalha e os vadios, a roupa suja e o hálito de bagaço) excita-se e grita-lhe: -”Viva a República!”. Numa temeridade absurda, ele atira-se ao murro e a pontapé a toda essa gente: -”Viva a Monarquia, seus filhos da puta”. Ficou enlouquecido de fúria. Não ouve apelos. Parece que, exímio jogador de “savate”, dava pontapés monumentais. Por fim foi dominado, é claro. Por um bom bocado o Comandante Afonso de Cerqueira perde o controlo da situação. O prisioneiro jaz por terra, espancado e golpeado na cabeça, na cara, no peito e nas costas. Cerqueira logra por fim, com forte risco para si próprio, entregá-lo a uma escolta de 1 Cabo da Armada e mais 3 Praças de baionetas caladas, mandando que o levem para o Arsenal, com ordens rigorosas para o defenderem até lá chegar.
Já na Baixa, num destroço e com a farda esfarrapada, em sinal de desprezo o Capitão cuspia sobre a multidão enfurecida o sangue que lhe enchia a boca, insensível aos apelos da pequena escolta, ela própria apavorada apesar das suas espingardas de baionetas caladas. Pedia-lhe o Cabo, que tentava abraçá-lo para o cobrir das agressões e que ia levando pancada pelo meio:
-”Ó senhor Capitão, ao menos não olhe assim para eles !” Ele redarguia-lhe, todo a escorrer sangue:
-”E como é que vocemecê, que é um homem de bem como estou a ver quer que eu olhe para esta canalha ?!”
O bom do Cabo tinha razão. As miradas do Capitão reflectiam um desprezo sem descrição, que destrambelhava a turba.
A multidão berrava-lhe: - “Viva a República!”. Ele, rouquíssimo, respondia:
- “Viva a Monarquia!”. Por fim, já não logrando emitir um som de voz, distribuía amplos “manguitos” para todos os lados…
Conseguiram enfim metê-lo no Arsenal, onde os Oficiais de Marinha presentes, republicanos segundo ele me disse, o resguardaram todavia com a maior urbanidade. Mas houve necessidade de transferi-lo logo para bordo de um navio de guerra surto no Tejo, porque a massa queria invadir o Arsenal e matá-lo. O Oficial de Dia ofereceu-lhe hospitalidade na câmara de bordo. Ele recusou, quis da sopa do rancho e comeu uma dose inacreditável, própria de quem estava mesmo esfaimado. Perante o olhar atónito da marinhagem, engoliu umas após outras 3 terrinas da pesada sopa! Depois pediu uma enxerga, deixou-se cair sem sequer tirar as botas, sem querer receber curativos, e dormiu 48 horas! Respeitaram-lhe o sono. E alguém, apiedado, pôs-lhe um cobertor em cima. Quando acordou, passaram-no então para a Penintenciária, onde será tratado como preso comum (fato às riscas e barrete), conforme aconteceu igualmente com muitos outros Oficiais monárquicos que, também revoltosos, para ali tinham ido. A sua chegada ao estabelecimento, sujíssimo, roto, ainda com as feridas por tratar, cheio de sangue coalhado, provocou a emoção consternada de um antigo contemporâneo da Escola do Exército, que na ocasião respondia pela Penitenciária:
- “Ó Costa Pinto!… mas em que estado o vejo!”
Sempre provocador, desdenhando o sinal de simpatia, o Capitão respondeu asperamente, enquanto lhe acudiam às feridas:
- “Você vê-me assim porque eu fui fiel ao Rei e perdi! Você também jurou fidelidade, mas ganhou porque traiu!”
Costa Pinto foi preso e quase linchado. Colocado num navio foi enviado para a Madeira, onde ficou detido no Presídio Militar de Lazareto, tendo sido transferido em Setembro para a Cadeia Nacional de Lisboa.
Libertado dois anos depois, sobreviveu a vender latas de azeite à comissão e depois seguros, o que lhe permitiu restabelecer contactos um pouco por todo o país, voltando a envolver-se politicamente nas eleições de 29 de Janeiro de 1922.
O trabalho na companhia Vacuum Oil devolveu-lhe a estabilidade económica, tendo, no início da Segunda Guerra Mundial, intercedido junto de Oliveira Salazar no sentido de ser permitido o regresso a da rainha D. Amélia a Portugal, de quem foi secretário pessoal entre 1945 e 1951.
Marcello Caetano, atribuiu-lhe a medalha de serviços relevantes em 1946, quando já tinha sido reintegrado na carreira militar com o posto de capitão…Uma nota de beleza e de humanidade: quando terminado o seu tempo de prisão, o Capitão não descansou enquanto não localizou o Cabo que, com tanto brio e coragem, o salvara. Achou indigno gratificá-lo. Optou por se responsabilizar a pagar-lhe os estudos de uma filha, menina de 7 anos, até ela querer. E assim aconteceu, já ela sendo mulher.
Boa conhecedora das suas idiossincrasias perante o Poder constituído e da sua contundente mordacidade, era raro a Rainha incumbi-lo de, como Secretário, se desempenhar de qualquer diligência com alguém da elite política portuguesa, mesmo muitos anos depois, já em plena “Situação”. Era, sobretudo, “o Aio”: uma companhia e uma assessoria. E alguém que a fazia sentir-se segura e protegida, quase como se um filho fosse.
O Capitão Júlio da Costa Pinto, Secretário e Aio, evitava chegar-se a Salazar; pelo contrário, mantinha-se à distância, parcimonioso, numa atitude militar que nunca perdeu. “Se alguém precisar de mim, que me chame. Eu não tenho nada que lá ir”, costumava dizer. Não gostava de Salazar: achava-o muito vaidoso na conhecida modéstia; entendia-o preocupado acima de tudo em aguentar um regime transitório, sem pensar no futuro; e era de uma ironia cortante quando referia os gerarcas da Situação.

Morte da Rainha D. Amélia
Em 3 de Agosto de 1951, o Capitão Costa Pinto escreve à Dra. Domitilla de Carvalho (do Gabinete de Salazar). Esta escrevera à Rainha D. Amélia em 22 de Julho anterior, sem notícia de maior, a julgar pela simplicíssima resposta do Capitão Costa Pinto, por ordem de D. Amélia.
A Rainha agradecia e mandava acrescentar: “Sua Majestade tem a maior admiração pelo Sr. Presidente do Conselho, Sr. Dr. Salazar, de quem tem tido provas de admiração sentida”.
Na Torre do Tombo, é este o último texto que, embora ditado e indirecto, se encontra da Rainha para Salazar.
D. Amélia sobrevive em grande fraqueza e cansaço depois de 4 de Outubro de 1951, com intermitências. Tem por vezes curtas alucinações, durante as quais “vê” o seu Aio coberto de sangue que lhe “brota” da cara aos borbotões e, confundindo-o com o Príncipe Real D. Luís Filipe no massacre de l de Fevereiro de 1908, agita-se numa grande aflição e pavor: — “Meu querido Luís! Meu querido filho! Estás todo cheio de sangue! O que é que te aconteceu? ! O que foi que te fizeram?!” A solicitude dos presentes procura o mais possível acalmá-la e furtá-la ao reviver sangrento da caçada, como D. Manuel II chamou à chacina. Só o Capitão Costa Pinto consegue melhores resultados. Fala-lhe brandamente. Aos poucos lhe faz ver que não está sangrando, que ele não é o Príncipe Real, passaram muitos anos, e que agora foi tudo um mau sonho de momento, só isso. Ela pára, arfante, vai-se situando de novo na realidade do tempo, mas até a crise passar chora sempre, de novo e com desespero, o filho e o marido, como se estivesse vivendo a tarde fatídica do Regicídio. De uma vez, com o Aio agarrando-lhe as mãos, saltam lágrimas em torrente dos olhos dela, algumas caindo nas costas das mãos do Capitão Costa Pinto. E ele, contava-me quase sem voz, beijou nas suas próprias mãos as lágrimas da Rainha.
Algum pessoal francês da Casa lida mal com essas crises, introduzindo nelas uma beatice estafante. Convencem a velha Senhora de que as “aparições” do filho assassinado são mensagens do “Além”, a pedir que rezem por ele . Esforçam a Rainha a uma sequência interminável de terços por alma do Príncipe Real: “pelo meu filho queridíssimo”, como ela dizia.O Capitão Costa Pinto depara com estas práticas e põe-lhes termo, não sem alguma dificuldade.
Finalmente a Rainha recobra, para morrer, toda a sua lucidez, como
jornais a descrevem.
Em 26 de Outubro de 1951, tratamento de dois diários importantes à agonia e morte da Rainha. Uma comparação:
Em “O Século”, dessa data, na 1ª página, ao alto, a 4 colunas, com 2 fotografias (uma das quais, o último retrato da Rainha), inclui-se a descrição dos seus últimos momentos:
Quote:
“Reclinada nos almofadões, quase sem um gemido: «Sofro tanto!» “Depois, deixando transparecer no rosto uma calma infinita”: «Deus está comigo!». Assim murmurava num português suavíssimo. “Eram quase 9h. e 30m. Nos olhos da sr° D. Amélia havia uma lucidez perfeita”. Instantes depois, abrangendo com o olhar os portugueses e franceses que a cercavam, disse, sempre em português: «Adeus…».
Da morte até ao dia 31 passaram 17.000 pessoas no Castelo de Bellevue, para apresentação de condolências.
No mesmo dia, o Comunicado oficial no “Diário da Manhã”, órgão do Governo, em primeira página, sem fotografia, apenas diz e a 1 coluna.
Quote:
Da Presidência do Conselho recebemos a seguinte comunicação: «Tendo falecido esta manhã em Versailles Sua Majestade a Senhora D. Amélia de Orleans e Bragança, o Governo resolveu que durante três dias os edifícios públicos mantenham bandeira a meia-haste e que o corpo seja oportunamente transferido para Lisboa a fim de ser sepultado no Panteão de S.Vicente, realizando-se então funerais nacionais, para o que vai ser expedido o respectivo, decreto».
Mal teve conhecimento do passamento, diz “O Século”, o Chefe do Protocolo francês, De La Chauvinière, foi ao castelo de Bellevue apresentar condolências em nome do Presidente Auriol e do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Robert Schuman. Genebrier, Prefeito de Seine-et-Oise, representando o Presidente do Conselho e os restantes membros do Governo Francês, apresentou, também, os pêsames aos familiares da Rainha. Ela não queria flores nem coroas no seu funeral em Versailles, pois as achava caras demais num tempo de sacrifícios. Mas isso não evitou que de Portugal chegasse, de avião, um ramo de flores malvas e brancas, dispostas em cruz, colhidas por Salazar(?…) nos jardins da Pena, segundo dizia a imprensa francesa. Seria provavelmente de camélias, flores que D. Amélia outrora adorava contemplar vivas e frescas nos jardins do Palácio. E ficava gratíssima a que com elas a presenteava.
O seu fiel Aio, Capitão Júlio da Costa Pinto, tinha o requinte de lhe levar camélias da Pena sempre que podia. E até morrer, na sua casa da Rua do Século,99, em Lisboa, punha, como tanta vez vi, imprescindíveis camélias junto do último retrato da Rainha, velhinha, onde se podia ler, pela mão já muitíssimo trémula: “Ao Júlio da Costa Pinto, em affectuosa lembrança da sua sempre tão constante e tão leal dedicação. Dona Amélia Rainha”.
Capitão Júlio da Costa Pinto e a Rainha D. Amélia
Quando um dia, muitos anos depois (finais da decada de 60), o Capitão se fartou de uma vida para ele já sem razão, tentou arranjar munições para a sua velha pistola “Savage”, mas não conseguiu. Tomou então uma dose enorme de barbitúricos. Deixou três vivas mensagens: na cabeceira o retrato da Rainha, com a habitual jarrinha de camélias. Voltada e pousada sobre o peito, uma moldura com a foto de D. Manuel II, também dedicada.
Numa cadeira ao lado, a bandeira azul e branca em que queria ser amortalhado. E palavra nenhuma, pois lá achou que não era preciso.
Para sua desgraça, quase 24 horas depois ainda a governanta o apanhou vivo; e levaram-no para um hospital, onde, todo entubado mas lúcido, teve dias de penosa agonia. O Duque de Bragança demonstrava-lhe carinho, e pelo menos um dos Príncipes o visitava constantemente, conforme me noticiava D. Duarte Nuno. Eu, em Lourenço Marques, nada pude fazer, excepto transcrever para uma folha de papel a Cena VI do V Acto do “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand, mandá-la pelo correio e pedir a alguém que, com urgência, lha lesse da minha parte. É a cena em que o irredutível combatente do Ideal, ferido e cambaleante no convento da sua amada Roxane, desembainha a espada e enlouquecido desafia o vazio, enquanto proclama que, nesse mesmo dia, a pluma do seu feltro varrerá largamente o Céu azul, pois transporta consigo, puríssimo, o seu “panache”… Foi-me garantido que percebeu e agradeceu.
…Ele saudou os seus Reis mortos, para se despedir. Mas não teve, como Mousinho, a sorte de conseguir fazer logo a “meia volta” e marchar para onde queria.
Júlio da Costa Pinto morreu em 1969, aos 86 anos.
Fonte:
“Salazar e a Rainha”, Fernando Amaro Monteiro