Mudar o regime Servir Portugal
Manuel Beninger
Mostrar mensagens com a etiqueta Artigo de Opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artigo de Opinião. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Economia Social e/ou Solidária; por Sílvia Oliveira
Desde que há humanidade existem pessoas desprotegidas, com as mais
diversas necessidades, vítimas de infortúnios ou de si próprias – e que têm de
ser ajudadas, fazendo vir ao de cima as qualidades que, felizmente, estão em
todo o ser humano – o altruísmo, a cooperação e a solidariedade – desde tempos
imemoráveis, pois o impulso de ajuda perante a dor do outro é inato, nasce com
o homem, faz parte dele. Lembrar esta realidade e o momento de carência que
atravessamos é decidir, por exemplo, falar um pouco da Economia Social, que
tem, desde 8 de maio de 2013, uma “identidade”: a Lei de Bases da Economia
Social.
A Economia Social é herdeira de uma tradição que se relaciona com o
movimento associativo da primeira metade do século XIX na Europa, onde a
resistência popular fez emergir um grande número de experiências solidárias,
influenciadas pela ajuda mútua, pela cooperação e pela associação. Como
fenómeno social, a emergência da Economia Social está intimamente ligada à
problemática da exclusão social e aos efeitos da carência económica, e tem a
sua origem na crise do Estado-Providência (1980), podendo ser definida como um
conjunto de experiências (que se apoia em atividades económicas) para a
realização de objetivos sociais. Inclui na sua ação ideais de cidadania, num
processo de democratização da economia, do trabalho voluntário e de utilidade
pública. Em síntese: é mais um espaço económico entre o público e o privado que
gera emprego.
Em Portugal, temos a Economia Social de mercado, como as cooperativas e
mutualidades, e as de não-mercado, como as associações, Misericórdias, IPSS’s e
fundações. Segundo a conta satélite do INE (instrumento que nos permite
conhecer a realidade ao pormenor), a Economia Social inclui 3109 cooperativas.
As cooperativas surgiram no século XIX e têm uma função social, de cariz
democrático e uma forte raiz popular. São reconhecidas pela União Europeia e
agregadoras de grande parte dos agricultores.
No que respeita às mutualistas, há 119 entidades, com um milhão de
associados e dois milhões e meio de beneficiários. As mutualistas vêm da Grécia
antiga (entre os séculos VI e V a. C), e surgiram em Portugal após a Revolução
Francesa. O princípio dos associados é dar pequenas contribuições periódicas
para um fundo comum.
Existem ainda 52086 associações, onde se enquadram as 5022 IPSS’s, que
apoiam 600 mil portugueses e pagam salários a 250 mil; 381 Misericórdias,
constituídas de acordo com o Direito Canónico, para satisfazer carências
sociais e praticar atos de culto católico. Antes destas centenárias associações
já existiam irmandades, ordens hospitalares, confrarias e outras organizações
de adesão voluntária. Neste âmbito, também se enquadram as fundações, cujo
património lhes é irrevogavelmente dado, o interesse é social e os seus
objetivos são culturais, de defesa do património, da saúde e do ensino;
surgiram em Portugal no século XX, mas têm a sua origem em Roma. Por último,
podemos incluir as Casas do Povo, associações locais com fins sociais e
culturais, e os bombeiros voluntários como associação humanitária.
Resumindo: 5,5% do emprego remunerado em Portugal pertence à Economia
Social, margem que ronda na Europa os 7,5%. Deste valor, 34,3% dos seus
serviços concentra-se na ação social, seguindo-se a cultura, desporto e
recreio, com 23,5% de trabalhadores. Isto leva-nos a afirmar que a Economia
Social é um mundo de altruísmo e de entreajuda, que dá o primado às pessoas e
centra os seus objetivos no âmbito social, com respeito são pelos valores da
solidariedade, da igualdade, da não discriminação, da coesão social, da
justiça, da equidade e da responsabilidade individual e social partilhada.
Como alguém referiu, a Economia Social é uma constelação de esperanças.
Por tudo isto, perder esta oportunidade é desperdiçar o enormíssimo capital de
criatividade, energia e vocação de milhares de organizações sociais que existem
e operam a nível local, regional e nacional no nosso país.
Importa, por último, dizer que os portugueses são especialmente
criativos e expeditos no que diz respeito à organização de respostas às
necessidades sociais. Por isso, gerar capital comum de conhecimento e
experiência útil para guiar todos aqueles que sentem a vocação ou vontade de se
dedicarem profissionalmente aos negócios sociais é, com grande certeza,
originar um Mercado Social copioso e a criação de mais e melhor emprego.
Sílvia Oliveira, deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho"
terça-feira, 15 de abril de 2014
Desilusão, Ilusão? Artigo de opinião de Sílvia Oliveira
Jornal "Diário do Minho" de 12 de Abril, pág. 14
A ilusão é uma projeção das idealizações da nossa infância, quando nos
iludimos, acreditamos que essa ilusão tem o segredo de tudo o que nos faz falta
esem ela nada faz sentido. A ilusão é um desejo profundo de querer recuperar um
estado de bem-aventurança, a reconquista do paraíso perdido da nossa infância,
que mais não é do que um mito do individuo e um sonho da humanidade, surgindo
deste equívoco a inevitável desilusão a expressar o excesso de dor pelo que já
foi ou até nunca existiu. A desilusão acontece sempre que identificamos um erro
entre aquilo que desejamos alcançar e aquilo que realmente alcançámos.
Sempre que identificamos esta discordância, na grande maioria das vezes,
ficamos decepcionados com os outros ou connosco mesmo.Nesse processo descobrimos que nos enganámos, que
não conhecíamos pessoas de sempre nas nossas vidas, que amigos falharam, que amantes
afinal não amavam, que o mundo que julgávamos arrumado de uma certa maneira
afinal não estava, ficando desta forma perante um estado que nos assalta
inadvertidamente, se instala sem pedir licença e se vai embora do mesmo modo
que qualquer outro luto e ao custo de mais uma perda de inocência. Mas, o mais
grave em tudo isto é que por mais velhos, experientes ou sábios que sejamos,
por mais inteligentes e elaborados que consigamos ser sobre a desnecessidade da
ilusão, o fato é que resistem em nós ingenuidades, ainda que bem disfarçadas,
que possibilitam amarguras que bem se escusavam, mas que são ineludíveis.Quando
isto nos acontece devemos ou deveríamos, ficar radiantesou pelo menos
satisfeitos porque a desilusão chega ao fim, permitindo que tudo se esclareça e
a fantasia enfim desaparece. Devíamos, pois claro. Mas, como se sabe, não
ficamos. Quando a desilusão chega,cansados de saber que o
erro é nosso, que mais que provavelmente o que agora aparece à luz do dia,
sempre lá esteve, que vimos o que quisemos ver e acreditámos no que quisemos
acreditar, continuamos a evoluir num mundo de ilusão, até que a dor e o
sofrimento se instalam e aí sim, tudo em nós quer mudar, para um mundo real.Importa aqui reforçar
que a desilusão é uma forma de frustração, e aprender a lidar com a
frustração é uma habilidade necessária para conseguirmos lidar com as nossas
emoções de forma funcional, aceitando que se perde de um lado, mas se ganha de outro. O mal humano
deste processo é que se lamenta a perda sem considerar o ganho que, inclusive,
pode não ser imediato nem aparente, mas que depois se revelará, muito maior do
que as nossas limitações podem percepcionar no momento. Também pode acontecer a
perda ser melhor do que o ganho, isso também faz parte do jogo é normal, outros
dinamismos a ser utilizados bem poderão inverter estas regras do jogo que
acredito, ninguém gostar de o jogar. Mas, o problema não reside nestas
alternâncias de ganhar e perder, o problema existe nas pessoas que odeiam
perder, importando-se muito com o que os outros têm e conseguiram, mesmo que
não seja de seu interesse pessoal, real. Também há os que desejam tudo para si,
sem querer abrir mão de nada, querem ganhar sempre e não se arrependem nunca de
nenhuma decisão. Ora estes comportamentos são fantasias infantis de
omnipotência. Valerá a pena aqui recordar que são as desilusões ou perdas de
inocência que quando admitidas plenamente e saboreadas em seu gosto amargo, nos
ensinam a viver, tornando-nos mais humanos, falíveis e flexíveis.O gosto de sua
aflição pode-nos tornar solidários, obtendo ganhos de fraternidade e compaixão
pelo outro com base em nossa própria experiência, isso por si só, já seria o suficiente
para inocentar muitos de nossos erros e incompreensões passadas. Mas,
otristíssimo da desilusão é ficarmos com a mágoa das memórias que deviamesfumar-se,
e não permanecerem para nos baralharem e confundirem. Disto surge-nos
inevitavelmente questão, o que fazer então? Sem soluções, recordando apenas o
provérbio alemão que diz:“Não sonhes a tua vida, vive o teu sonho”.Não sonhes a
tua vida, porque sonhar a vida é perdermo-nos em nevoeiros das ilusões vazias e
enganosas, criadas precisamente para fazer esquecer ou evitar os nossos
limites, frustrações e sofrimentos. Os que vivem a sonhar a vida acreditam ser
verdadeiro o que é ilusório. Bem diferente é a sorte daqueles que na dureza da
vida se empenham em querer viver os seus sonhos. Os que assim procedem terminam
convencendo-se de que o sonho, mesmo quando parece ilusórioé o mais verdadeiro,
pois é nele que se encontra a motivação necessária para dar sentido e dizer sim
à vida. Viver o sonho é abrir um horizonte para a esperança, não desanimar,
mesmo que as dificuldades sejam muitas. Mas, se continuarmos a iludir-nose a
arrependermo-nos da nossa ilusão, não há problema, o mundo é assim mesmo, está
tudo certo.
Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
terça-feira, 9 de julho de 2013
Um perfil no meio de muitos; artigo de opinião de Sílvia Oliveira
O perfil que abordarei trata um tipo de expressão psíquica perversa e
silenciosa que embora sempre tenha existido, talvez encontre na cultura atual
um terreno particularmente fértil, tornando-se mais comum do que poderíamos imaginar.
Esta perversão tem como mote o poder, que hoje é incentivado pelos meios de
comunicação social.
Para iniciar a sua caracterização afirmo desde logo que se trata de uma
violência que se estende ao longo do tempo e não de uma violência pontual, ela
imiscui-se no dia a dia, nos pequemos atos, tendendo assim a passar
despercebida. A própria vítima tem dificuldade em a perceber e mais ainda em a
reconhecer, tornando-se, por isso mesmo, uma cúmplice de uma teia não desejada,
que lentamente lhe vai desmoronar a auto-estima e paz interior, isto acontece
na dominação de um sobre o outro, em relações que tanto podem ser
profissionais, como familiares e até intimas, onde a dependência emocional e/ou
material existe e, onde o agressor nutre o sentimento de ódio pelo outro, mas
simultaneamente sente que não pode sobreviver sem ele, como se o outro fosse a
sua sustentação, recusando neste quadro os desejos e necessidades do outro em
proveito das suas próprias necessidades.
A violência silenciosa que refiro é velada e insidiosa, existe e
mantêm-se por vias indiretas e complexas da relação humana, sendo logo apriori negada e renegada pelo agressor,
que de forma subtil inverte a relação acusando o outro de ser o culpado das
ocorrências que lhe são desagradáveis, compensando através deste poder e
controle sobre o outro, os seus conteúdos psicológicos perturbadores que passam
por uma melancolia e/ou depressão com certo cunho psicótico. A sua maldade
cria-se através de um cálculo imaginário e fantasmático com toques paranóicos
explícitos e uma deformação da apreensão da realidade, uma projecção de
sentimentos defensivos e medos primários sobre as acções dos outros, onde a
falta de confiança interna estrutural é vincadamente inscrita.
Este perverso silencioso por dificuldade de defrontar-se com os seus
próprios problemas viverá uma existência insuficiente e superficial que lhe
confirmará um fundo inseguro e fadado ao fracasso, que procura a todo o custo
esconder dos outros e de si mesmo. Remetido à sua fraca integração, às suas
falhas, ao seu sentimento de menos valia, que tanto ameaça o seu silêncio, à
revolta que o faz odiar o mundo e duvidar da bondade alheia, à dificuldade de amar
a vida e o outro, sobretudo em amar aqueles que o amam, acreditando, enfim, que
só pode sobreviver dominando, manipulado e escondendo. Os seus ataques são
crescentes quando se sente acusado, quando perde o domínio sobre o outro e vê
ameaçada a situação que o favorece. Ou seja, o ataque é de fato uma defesa
contra a possibilidade de a vítima insurgir-se contra a sua “vampirização”,
contra o seu controle e manipulação, contra a situação por ele lentamente
criada que favorece a dominação em que se sente seguro.
Mas, o mais grave destas situações é que o agressor atua
inconscientemente, acreditando que as suas construções paranóicas de ataque ao
outro são vindas de um sentimento e são, absolutamente, imprescindíveis para a
sua sobrevivência, vindo-lhe, por isso, à consciência de que o outro merece os
seus ataques, silenciosos e precisa estar sob controlo e sob o seu domínio,
pois caso contrário esse outro ameaçá-lo-á na sua continuidade. Quase que
poderei arriscar dizendo que, este tipo de agressor tem pavor de enfrentar-se a
si mesmo, medo devido ao reflexo do vazio, à ausência de integração, à falsa imagem
ou melhor à inexistência de amor na sua vida primária, aquela onde cuidadores,
progenitores e pais inscrevem a sua expressão. Mas, isto não pode justificar as
ações de uso e apropriação do outro para fazer frente à sua própria
fragilidade, encarando-a como se de uma questão de sobrevivência se tratasse,
em que o ataque silencioso vem em sua legitima defesa.
Em suma o que este tipo de agressor não pode fazer é projetar no outro o
que de ruim ele sente em si próprio, destruindo, como se estivesse a destruir-se
a si mesmo ou a controlar os seus próprios fantasmas, passando a viver da
vitalidade do outro, isto porque nem a vitalidade que retira ao outro passa a
ser sua, nem as suas dificuldades findam ou modificam.
Sílvia Oliveira
Deputada do PPM na Assembleia Municipal de Braga
sexta-feira, 10 de maio de 2013
A síndrome de burnout na função pública; por Sílvia Oliveira
Apesar
de vivermos uma época de crise no Estado e na Administração Pública, onde a
gestão organizacional apresenta múltiplas limitações, a missão de prestar
serviços à sociedade continua, interessando, por isso, cuidar da absoluta versão
da crise, os “Seres Humanos” ou neste caso, os Funcionários públicos, revalorizando-os
como sendo os únicos recursos seguros e estáveis para a vencer.
A gestão
na função pública apresenta excessivas regras e rotinas, que impedem a participação
criativa, a autonomia e as consequentes tomadas de decisões, emperrando muitas
das atividades que deveriam ser realizadas. Também possui uma supervalorização
da hierarquia e rigidez no seu funcionamento, para além do aferro ao poder. Os
trabalhadores são controlados por papéis, normas e procedimentos, as condições
do trabalho tendem a uniformizar-se, encaminham-se os trabalhadores para
idênticas situações laborais e de organização do trabalho, sendo a dependência
da decisão política e das flutuações da capacidade económica do Estado, mais
uma das questões relevantes, na medida em que determinam aspectos importantes
do exercício funcional do trabalhador.
Neste
contexto, vejamos a título de exemplo a profissão docente, reconhecida por ser de
uma profissão de “alta tensão”, onde muitas das atribuições impostas a este
profissionais ultrapassam em larga medida as suas possibilidades: além de
turmas lotadas e exigentes, têm ainda que desempenhar trabalhos burocráticos,
desnecessários e não relacionados com a essência da sua profissão, como são as funções
de secretariado, responder à necessidade de actualização constante da sua
atividade docente, orientar os alunos e atender os pais, procurar respostas às
exigências que a sociedade lhe atribui, na tentativa de corrigir problemas
sociais, provenientes de um domínio familiar ausente, estando simultaneamente
muito expostos a críticas e a grandes cobranças pela população em geral, raramente
reconhecidos pelo seu sucesso, a viverem longe da zona de residência dos
familiares, com falta de condições e recursos materiais, sujeitos a adaptações
constantes às muitas reformas e mudanças que o sistema de ensino-aprendizagem
tem transportado, tanto a nível da organização da aprendizagem, como da própria
carreira, resultando tudo isto numa sobrecarga emocional e física,
proporcionadora direta de esgotamento profissional ou burnout. Mas afinal o que é isto de burnout? Burnout é uma reacção às condições de trabalho
stressantes, uma síndrome que assinala exaustão emocional, respostas
interpessoais frias e distantes e uma baixa realização profissional, com a
perda de motivação, em relação a si próprio, família, amigos e trabalho. As
consequências podem ser sérias, pois a sua ocorrência para além de se vincular
à diminuição das habilidades, aumento do absenteísmo e a intenção de desistir
do trabalho, diminui o comprometimento organizacional, bem como, instala o mal-estar
físico e psicológico revelado nas relações interpessoais, no sentimento de
inadequação e fracasso, podendo mesmo atingir estados depressivos e ansiosos
para além da ocorrência de somatizações e doenças físicas graves. Ou seja, um
desgaste que se instala progressivamente, até que surge o colapso, isto porque
o desempenho é sempre apresentado com mais esforço e mais empenho, sendo as
tentativas, em ambientes de trabalho hostis e desumanizados, infrutíferas, o
que leva o profissional a desistir, adoecendo.
Neste
quadro, surge a necessidade de maior saúde laboral, nos serviços públicos,
evidenciando-se a urgência de mudança no processo de trabalho, de forma a se
minimizar as consequências sobre a saúde dos servidores públicos. Prevê-se,
porém, que à medida que seja alterada e valorizada a relevância de propiciar
melhores condições laborais nestes contextos específicos surjam, também,
resistências e questões de ordem política e organizacional, e isto porque coexistem,
por um lado, a burocracia em seu sentido corporativo, centralizador e portanto,
contrário às mudanças na organização e nas formas de operar dentro do aparelho
do Estado; e, por outro lado, as próprias forças inovadoras, cuja
responsabilidade é a efectiva mudança, que encontram, nestes meios
organizacionais, muita dificuldade para implementar, de maneira efetiva,
projetos de reforma. Mesmo assim, e independentemente das resistências criadas,
a função pública, terá que quebrar paradigmas, modificar comportamentos e
alterar atitudes almejando o novo e a mudança, tudo isto em proveito da continuidade
e saúde dos únicos Recursos que possui seguros e estáveis, os Funcionários públicos.
Sílvia
Oliveira
Deputada
pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 8 de Maio, pág. 14
sábado, 9 de março de 2013
Liderança feminina; por Sílvia Oliveira
A liderança no feminino terá porventura um efeito multiplicador na
produtividade, e crescimento económico sustentável de um país.
A literatura é vasta e aponta às mulheres um estilo de liderança
transformacional que se apoia nas habilidades interpessoais, as mulheres
trabalham em grupo, são inclusivas, relacionais e cooperantes, flexíveis em
termos de abordagem, têm boa capacidade de entender, de motivar e de se adequar
ao perfil de cada membro da sua equipa, exercem a liderança definindo
estratégias e alinhando as pessoas, com vista a atingir os resultados
consistentes com a missão e os objectivos da organização, trabalhadoras,
perseverantes e criativas, preparam-se excessivamente para tudo, o que as faz
adiar decisões e perder oportunidades de promoção. Para Frankel (2007) “todas
as mulheres são naturalmente líderes”, os talentos naturais entre os quais se
inclui a partilha, apetência pelo trabalho em rede e pela negociação, a
sensibilidade emocional e a empatia, a capacidade de conciliar diversas tarefas
ou a facilidade de comunicação verbal, o forte perfil analítico, a grande
capacidade de planeamento, a aptidão de ver o todo, a generosidade, harmonia e posição participativa, a
habilidade na negociação e na resolução de problemas, são atributos essenciais
para uma boa liderança. Esta
afirmativa teórica leva-nos a perguntar, o que se passa na prática?
Na Europa as mulheres representam 60% dos licenciados e constituem 44%
da força do trabalho, apenas 13,5% têm lugar nos conselhos de administração das
grandes empresas e somente 2,5% se sentam na cadeira do poder. A Finlândia
lidera a lista dos dez países com mais mulheres em cargos ministeriais, logo
seguida por Cabo Verde, Espanha, Noruega e Chile. Entre os Países de Língua
Portuguesa surge curiosamente o Brasil com menos mulheres a ocuparem cargos
parlamentares e ministeriais. Nos ministérios governamentais, a equidade é
maior em Cabo Verde
com 53,3% de mulheres representadas. A nível do poder legislativo evoluiu-se de
11% para 21%, enquanto no campo judicial, a proporção de mulheres procuradoras
passou de 15% para 21%. Na Noruega as politicas de ordem conseguiram que a
representação feminina evolui-se de 22% para 40% na liderança de empresas,
entre 2003 e 2008. Na França a imposição de uma quota feminina de 40% às suas
melhores empresas reforçou a presença das mulheres na liderança em 10%, tendo
sido a média da Europa de 0,5% em 2010 e 1,9% em 2011. A Vice-Presidente da
Comissão Europeia e responsável pela área da Justiça, Direitos Fundamentais e
Cidadania lançou, em 2011, um desafio aberto a todas as empresas europeias
cotadas em bolsa, com vista ao seu comprometimento voluntário para aumentarem a
presença feminina nas suas direções, passado pouco mais de um ano, apenas 26
empresas assinaram o documento e, destas, só uma é portuguesa. Em Portugal
existe uma Resolução do Conselho de Ministros, que veio tornar obrigatória a
adoção de planos de igualdade em todas as entidades do sector empresarial e do
Estado. Um estudo sobre as “Mulheres na Política (2010)”, publicado pela União
Interparlamentar e Divisão da Promoção da Mulher das Nações Unidas, revela que
a promoção das mulheres para cargos de topo tem sido eficaz ao nível
governamental. O mesmo estudo revela, ainda, que 10% dos países membros da ONU
têm mulheres chefes de Estado e que a média global de mulheres parlamentares
atingiu 18,8%. Também as empresas europeias que apostam na igualdade de género
registam percentagens mais elevadas de mulheres em lugares de chefia, no
entanto, nas mil maiores multinacionais europeias, apenas 3% das presidentes
são figuras femininas. A Comissão Europeia, defende que promover uma efetiva
igualdade entre homens e mulheres é essencial para que a União Europeia dê
resposta à atual crise económica, por isso, determina que, em 2015, 30% dos
membros dos conselhos de administração sejam mulheres, tendo a representação
feminina que passar para 40%, até 2020.
Verificado este evoluir, sem evolução e também sem grandes soluções para
a complexidade deste fenómeno, entendo, apenas, que as mulheres necessitam de
aceitar menos os estereótipos, que lhes atribuem o papel de cuidadoras e
assumir a partilha de responsabilidades parentais. Também é inegável a adoção, por
parte das organizações, de práticas e políticas de gestão que favoreçam a
conciliação da vida profissional, familiar e pessoal, contributos determinantes
para que as mulheres possam assumir responsabilidades como dirigentes de topo
ou como gestoras do seu próprio negócio. Por último, julgo ser de grande valia incluir
de forma ativa os homens na vida privada, promovendo e reforçando as suas
competências parentais, assim como, o acesso das mulheres à vida pública.
Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na
Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 8 de Março, pág. 19
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Os sonhos, uma ferramenta para a crise...; por Sílvia Oliveira
Sonhar é uma antecipação mental de uma determinada
realidade que é uma possibilidade, o resto é um trabalho de inspiração, coragem
e optimismo, mas também de confiança em nós mesmos. Quem sonha parece não ter
dúvidas de que é preciso alguma paciência para levar os sonhos por diante. Os
sonhos nocturnos apontam-nos o passado, o que sonhamos acordados apontam o
futuro, são previsões voltadas para a optimização da nossa vida no mundo.
Como diz Augusto Cury para sonhar é preciso “libertar
criatividade” e ter “dois remos para conduzir o barco: a paciência e a
coragem”, mas também determinação e esperança. Na opinião de Cury “a maneira
como enfrentamos rejeições, decepções, erros, perdas, sentimentos de culpa,
conflitos nos relacionamentos, críticas e crises profissionais, entre outras
situações, pode gerar maturidade ou angústia, segurança ou traumas, líderes ou
vítimas, sendo estas as diferenças no homem que levam ou não, os sonhos a
conquistas. É importante lembrar que só tem vontade de avançar aqueles que têm
horizontes, pois se não conseguem imaginar o dia de amanhã é porque nem sequer
querem que ele exista.
Há pessoas que sonham um curso, um título, um
emprego, outras há em que os seus sonhos são orientadores de vida, são as metas
e os objectivos, mas também há os que sonham com um mundo melhor, com a
igualdade, a liberdade, a paz, entre muitas outras coisas.
Mas será que sonhamos ou nos deixamos levar pela
ilusão, criando fantasias irrealizáveis? Ou até que ponto embarcamos numa fuga
para a frente, concentrando-nos no futuro, negligenciando o presente ou
evitando o passado?
A impossibilidade de sonhar nasce na infância, na
fase de crescimento que coincide com a capacidade de edificarmos o nosso mundo
à medida que nos separamos dos nossos pais. Quando as coisas não correm bem
desenvolve-se na criança dependência em relação ao adulto ou omnipotência,
neste caso, com crianças extremamente autónomas e funcionais que na aparência
parecem não precisar de ninguém, dando a ideia de que foram capazes de fazer
uma separação saudável dos seus cuidadores, só que as coisas nem sempre são o
que parecem, nestes casos são crianças que deixaram de confiar nos adultos.
Mas, tanto num caso como noutro há nestas crianças/adultos excesso de amor ou
de desamor sendo o resultado uma grande incapacidade de estar consigo próprio,
de imaginar ou sonhar.
Nesta continuidade encontramos pessoas com excesso de
sonhos, diria de ilusões. São indivíduos com dificuldade em se adaptar à
realidade, refugiando-se, por isso, na interpretação da mesma, o que os faz
viver de fantasias e fracassos. Para Cury "quem viver preso num casulo com
medo dos acidentes da vida, além de não os eliminar, será frustrado”.
Outros ainda, que enterram os seus sonhos nos solos
da sua timidez e nos destroços das suas preocupações.
Neste processo também os pais podem ser postos em
causa, na medida em que sonham em vez dos filhos, criam fantasias sobre eles,
desenvolvem sonhos desajustados à realidade dos seus filhos, podendo em casos
extremos prejudicá-los de forma traumática, isto para não falar nas decepções
que os próprios pais sentem devido às suas próprias invenções.
O sonho pode bem ser a necessidade fundamental de um
mundo material ou a capacidade de ver e antecipar o não visível mas que tem
potencial de se tornar concretizável. Quando sonhamos uma realidade desejada,
de alguma forma tentamos, com esse sonho, aproximarmo-nos da possibilidade de
ela ser real. Por isso, definir por onde queremos caminharia com audácia e
disciplina, independentemente do nosso passado e de estarmos a viver uma
situação menos boa, é mobilizador de uma enorme energia que nos permite
perceber que é possível ir sempre mais longe e nos encaminha para onde queremos
chegar.
Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal Diário do Minho de 23 de Fevereiro, pág. 2
sábado, 5 de janeiro de 2013
Ano Novo Vida Nova; por Sílvia Oliveira
Todos os anos cumprimos o mesmo protocolo, pegamos em
doze passas e, por cada uma que colocamos na boca, ao compasso das badaladas
que marcam mais um progresso no calendário, pedimos desejos para o ano novo que
está a comparecer. Nesse instante de contagem decrescente, afiançamos que vamos
arranjar energias para tornar os nossos sonhos realidade, pois deles depende a
nossa ventura, juramento este que no dia seguinte fica largado ou adiado.
Mudar de vida dá trabalho exige uma atitude activa,
avaliando as vantagens, enfrentando as escolhas, renascendo e aprendendo.
O que nos leva a aferrolhar o caminho aos desejos de
mudança é o medo, a segurança existencial e consequente necessidade de
controlar todos os riscos. Claro que mudar por mudar, sem saber muito bem
porquê ou para onde, não é solução para qualquer tipo de mal-estar interior.
Mas, a mudança, quando reflectida e nascida dentro das nossas potencialidades
vitais, pode abrir caminhos de realização nunca imaginados possíveis. E, o que
nos leva a abrir esses mesmos caminhos para a mudança é a angústia diária, como
sinal de alarme que nos faz parar para questionar o que queremos para a nossa
existência(?). Desta questão surge naturalmente uma encruzilhada, situação mais
ou menos complexa do que é habitual, tendo a pessoa que optar por um caminho
vital entre vários possíveis. As
mudanças, os conflitos, as crises ou as encruzilhadas não são acidentes do
destino, são parte natural e essencial da condição humana, alimentam uma ideia
de renascimento, pois nela incluem uma solução satisfatória e uma esperança para
a frente.
Ora, olhar de frente é talvez o maior desafio de quem
decidiu tomar como pensamento “Ano Novo Vida Nova”. Para isto temos que nos
debruçar sobre nós mesmos e analisarmos as nossas necessidades mais profundas,
e se somos tão bons a fazê-lo para os outros, sobretudo quando não nos pedem,
porque é que temos tanto medo de olhar e actuarmos dentro de nós(?), porque
talvez tenhamos medo de que as nossas verdadeiras necessidades não correspondam
às exigências dos outros ou da sociedade, o que nos dificulta a tomada de
decisão ou então temos medo de dar um passo em falso, ir contra as praxes
sociais. Enfim, vencer este terror inicial da descoberta é fundamental e uma
empreitada que depende somente de cada um, onde nenhum apoio externo pode
subestimar esta decisão autónoma de fazermos algo por nós próprios.
Aprender e renascer passa naturalmente por mudanças
nas crenças e costumes. Por isso é essencial conhecermos a nossa história, pois
é o passado que nos mostra as nossas possibilidades e limitações. Não podemos
fazer planos de futuro a partir de uma avaliação errada dos nossos recursos,
alertando-se que muitas das nossas potencialidades poderão estar esquecidas ou até
sufocadas por nunca terem sido chamadas ao nosso quotidiano.
A mudança acontece e com ela os tempos de desordem
que requerem coragem e perseverança. Talvez não seja fácil aceitarmos a
desordem devido à luta contínua pela ordem das coisas, quando este caos se
instala temos atitudes imaturas e infantis ou melhor temerosas, são as
regressões em que adoptamos novamente comportamentos de outras etapas da vida,
e em que damos um passo atrás na nossa relação com o mundo.
É, assim, nesta desordem e persistência que
aventuramos um novo caminho de vida, uma descoberta, uma nova tarefa, que de
solitária não tem nada, visto precisarmos de todos os outros para se criar o
ambiente propício à mudança e crescimento. Se as pessoas à minha volta forem
congruentes, genuínas, autênticas, se me aceitarem de forma incondicional, ou
olharem para mim de modo positivo e dispostas a compreender-me, então temos
criadas as condições certas para a mudança e crescimento.
Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 4 de Janeiro de 2013, pág. 19
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Comprar pode ser um sentimento; por Sílvia Oliveira
Cresce o desconforto de um processo sem fim, que tem
na sua base crenças insensatas em que comprar pode ser um acto sentimental ou compulsivo quando serve para nos
compensarmos daquilo que não podemos ter. Este comportamento alimenta-se de uma
ansiedade crescente em que quanto maior a tensão interior, mais vezes se repete
o comportamento, assim como, maior se vai tornar o sentimento de culpa, de
perda de controlo e de desvalorização pessoal. O comportamento compulsivo e
rotineiro apenas esconde necessidades afectivas não preenchidas: são tristezas,
solidões e frustrações os pilotos destes comportamentos; são o vício em que as
pessoas estão envolvidas; é uma fraca auto-estima inconscientemente compensada
com as compras; é uma tensão acumulada e incapacidade de resistir ao impulso,
acto prejudicial, em que a pessoa apesar de ter consciência do seu acto não
consegue impedir-se de o fazer. O acto de comprar proporciona, ainda que
temporariamente, emoções positivas como a alegria, o bem-estar, a sensação de
poder e até algum relaxamento, o problema, é que a corrida às compras não
“tapa” o vazio interior. Se estamos mal no casamento ou no emprego, se temos
problemas com os filhos ou com os pais, se os vizinhos são um incomodo
desforramo-nos nas compras para reduzir a ansiedade, de compra em compra
experimentamos as emoções de alegria e/ou tristeza, pelo meio somam-se perdas
afectivas e sentimentos de profundo desespero que, por vezes, é preciso chegar
para repensar tudo e partir do zero, procurando-se soluções pessoais aos
problemas em vez de substitutos materiais.
Para reforçar esta realidade que vem de dentro de
cada um de nós temos no descoberto das pessoas a sociedade da superabundância,
onde somos assediados pelos múltiplos apelos ao consumo, a facilidade de acesso
ao dinheiro que apesar de constituir, só por si, um factor ilusório, faz
consumir cada vez mais. Neste rescaldo, consumimos para nos afirmarmos em que o
possuir é algo como demonstrar, adquirir status, conhecimento e distinção.
E, nesta permuta entre o pessoal e o colectivo surge-nos
a inevitável questão: será que podemos continuar nesta atitude, com este
comportamento condicionado ao consumo? É claro que não, a sociedade que ontem
nos abriu as portas ao consumo é a mesma que hoje as fecha, alertando-nos para
o “travão a fundo” na despesa, recordando-nos, inclusivamente, que os bens
acautelam as nossas necessidades, mas não nos aliviam das frustrações do
dia-a-dia que nos impelem à acção espontânea que, por vezes, ignora os nossos
interesses e o dos outros.
Enfim, apesar da sociedade mediatizada e
materialista, nos bombardear com todo o tipo de estereótipos, o que nos
dificulta a percepção do que é realmente essencial, como se nos fizessem uma
lavagem ao cérebro, destituindo-nos de sentido crítico, surgindo com isto o
mal-estar interior, aquele que nos faz sentir vazios e perdidos, escravos de
todo o tipo de modas e tendências, muitas das vezes geradoras, ainda, de mais
decepções, as pessoas sabem muito bem como se libertar da pressão da
publicidade e do consumo, se estão inquietas é por outros motivos como o
desemprego, uma doença, a relação com os outros, o desapontamento ou a falta de
amor. Por isso, não faça das compras deste Natal o antitóxico do vosso humor ou
da vossa moral.
Sílvia Oliveira
Deputada municipal pelo PPM na Assembleia Municipal
de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 9 de Dezembro
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
CHEGARAM OS DIAS CINZENTOS, NÃO FUJA DELES - artigo de opinião de Sílvia Oliveira
Corremos o risco de atrofiar a nossa existência,
privando-nos de alcançar patamares mais ricos e mais humanos, quando tentamos
afastar, e depressa, para se impedir o risco de exclusão familiar e/ou social,
estados de humor como a raiva, a melancolia, a frustração, a tristeza, a
ansiedade e o medo, que em circunstâncias legítimas são naturais e até
transformadores. As emoções perturbadoras não têm de ser “as más da fita”,
sobretudo se nos permitirem o questionamento e a autoconsciência, isto é, o
reconhecimento de uma emoção enquanto ela decorre, ou dito de uma outra forma,
o comportamento saudável que nos pode conduzir a mudanças, em períodos de
crise.
Tal como a alimentação saudável, o exercício físico e
o sono reparador, são sinónimos de saúde e bem-estar, também a gestão das
emoções deve ser considerada como uma espécie de bússola de orientação interna,
pela finalidade que tem de adaptar o homem às circunstâncias, o que
naturalmente é o mesmo que voltar a falar de saúde e bem-estar,
independentemente de num caso a actuação ser mais física e no outro mais
psicológico.
Porém nem sempre é fácil lidar com tantos e tão
rápidos estados de humor que preenchem o nosso quotidiano. Basta que surja um
acontecimento inesperado, como a morte de um familiar, um divórcio, a perda de
emprego, entre muitos outros, importantes ou até banais, para que o mundo
interior fique, na maioria das vezes, virado do avesso, agudizando fragilidades
até então ocultas, que encontram nestas carências e perigos a oportunidade e o
desejo de uma “felicidade” individual.
Chegados aqui a negar a presença das pressões que nos
afectam, das mais triviais às mais complexas, ou reagir desmedidamente a elas
de forma persistente compromete seriamente a vida pessoal e profissional, isto
sem contar com os danos físicos e psicológicos que estes quadros reactivos
acarretam.
Em alternativa, entrar fundo, bem dentro de si mesmo
encarando as experiências emocionais, difíceis, de frente, ou dito de outra
forma, colocar as emoções negativas ao espelho, pensar que o medo é legítimo,
mas não nos pode atar as mãos e os pés, podendo ser até o impulsionador da
coragem dos guerreiros, que a humilhação dói, mas ajuda a se voltar a assumir
riscos, que a decepção faz parte da vida, mas a capacidade de confiar também,
que a zanga é válida, mas sem a velha máxima - olho por olho, dente por dente
-, que afinal não se é único a passar por todas estas sensações, que tudo é
temporário, ou seja, não dura para sempre, restando-nos, apenas, em tais
quadros em que a sensação é de derrota, ressentimento, aversão e até ódio,
inutilidade, impotência, apego, revolta e muito sofrimento, saber parar, parar
para reflectir, entrando assim nos dias cinzentos, os verdadeiros “mágicos” de
sabedoria e transformação.
Sílvia Oliveira
Deputada Municipal pelo PPM na Assembleia Municipal
de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 30 de Outubro, pág. 20
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Do movimento ao mérito; Artigo de opinião de Sílvia Oliveira
O que desencadeia as energias e os recursos anímicos
que vamos tendo para alimentar o nosso quotidiano, enrodilhado em
acontecimentos e pejado de preocupações são os motivos nem sempre bons nem
sempre maus, mas possíveis de ser evocados em frente de amigos e conhecidos ou
a motivação consciente, que nos permite grandes e pequenas batalhas, travadas
em direcção a objectivos elegíveis, que por isso mesmo, podem ser ditos em voz
alta.
Na motivação começamos sempre por um impulso interno,
aquela coisa de sobrevivência, que é capaz de nos levar à satisfação de
necessidades muito, muito “grosseiras”, para seguirmos em frente, expandindo a
ideia, ainda mais, até chegarmos à atracção ou aos patamares de conforto e
exigência, que levam em conta as preferências individuais. Chegamos, assim, ao
momento de afirmação pessoal, descobrindo com ele, que gostamos de ganhar
dinheiro, que gostamos de comprar coisas bonitas e sentir a segurança que os
“pés-de-meia” nos proporcionam, que gostamos de sermos importantes ou famosos,
pagando muitas das vezes para sermos cumprimentados com deferência, que
gostamos, felizmente apenas para alguns, do controlo mais ou menos sofisticado
e perverso de “dar cartas” e viver das emoções dos outros, sentindo-nos com
isso, no centro de um “mundozinho” limitado mas simultaneamente embriagante,
que gostamos de nos apaixonar em cada enamoramento, tecendo para isso
complicadas atitudes sedutoras que até nos levam a escrever um livro, uma
música ou um poema, na dor da festa ou da despedida, que gostamos que conversem
connosco e nos convidem para uma festa e até nos convenção da nossa
popularidade, enfim gostamos de uma forma plural e igualmente legítima.
O desconfortável de todo este movimento humano não é
o reconhecer nestes motivos apresentados ou noutros igualmente verdadeiros
simpatia, incompatibilidade ou discórdia, mas sim perceber que o sistema de
compensação ou o sistema que alimenta estes movimentos, não é nem assumido, nem
claro, e isso acontece quando o que nos move nos escapa à consciência, surgindo
desse resultado prioridades circunstanciais pouco íntimas, que nos levam a não
reconhecer o mérito, o nosso mérito.
Sílvia Oliveira
Deputada Municipal pelo PPM na Assembleia Municipal
de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 6 de Outubro, pág. 20
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
O stress no trabalho - Artigo de opinião de Sílvia Oliveira
Sabemos que o modo como as pessoas vivem e trabalham influencia,
consideravelmente, a sua saúde e longevidade. Por isso, os indivíduos, de uma
forma geral, apresentam interesse numa vida saudável, equilibrada e harmoniosa,
estando estas intenções de acordo com a definição de saúde da OMS, “um estado completo de bem-estar físico, mental
e social, e não apenas a ausência de doenças”.
Mas, em oposição ao desejo de saúde declarado pelo indivíduo e a
sociedade, encontramos o stress assumido e aceite como um modo de vida que
evoluiu desde o período da Revolução
Industrial e chega aos nossos dias como o maior responsável pela diminuição
da qualidade de vida do trabalhador, sendo por isso mesmo uma das principais
áreas de preocupação da sociedade atual.
Segundo dados publicados pela Agência Europeia para a Segurança e Saúde
no Trabalho, o stress relacionado com o trabalho afeta 41 milhões de
trabalhadores, por ano, em todos os ramos de atividade. Isto equivale a cerca
de 600 milhões de dias de trabalho perdidos, constituindo esta situação um motivo
de preocupação devido aos efeitos sociais e de saúde pública para o século XXI.
Só na União Europeia, o fenómeno do stress está no segundo lugar entre os
problemas de saúde mais frequentes, no contexto da saúde ocupacional, afetando
28% dos trabalhadores do mercado, provocando, numa ótica quantitativa, quebras
de ritmos de produção, causados pelo desgaste da capacidade produtiva dos
trabalhadores, custos com a saúde e medicina ocupacional, para a reabilitação
dos recursos humanos, gastos com a formação, reposição e integração de novos
trabalhadores, para além das greves e do absentismo.
Considerando a relação específica entre o stress e o trabalho, a Comissão Europeia, definiu-o como um
conjunto de reações emocionais, cognitivas, comportamentais e fisiológicas face
às adversidades no trabalho, podendo essas mesmas adversidades ou dificuldades provindas
do ambiente social onde se desenvolve o trabalho, evoluir para quadros
patológicos e crónicos como é o burnout
- um síndrome simultaneamente emocional e físico, no qual o desgaste se
instala progressivamente, até que surge o colapso. Quando as organizações não
consideram o “lado humano” de qualquer atividade, utilizando as pessoas, podem
levar os indivíduos a uma deterioração do seu desempenho, trazendo com isso
prejuízos pessoais, organizacionais e na relação com os outros, colegas,
família e amigos. A esta realidade juntam-se as mudanças no trabalho: o mercado
é globalizante e extremamente competitivo; o trabalho é mais intenso, exige
mais tempo e é mais complexo; produz-se mais, com menos pessoas, e menos
recursos; o ritmo alucinante com que se trabalha deteriora o relacionamento com
colegas, elimina a solidariedade e o verdadeiro trabalho em equipa, destruindo
também a criatividade; há conflito de valores e desequilíbrio entre as
exigências do trabalho e os princípios pessoais, entre outras, aumentando com
tudo isto o desgaste físico e emocional com níveis de stress cada vez mais
elevados.
Em conclusão, sendo o trabalho um problema de saúde pública e parte integrante
da existência humana, uma vez que o homem moderno tem dificuldade em dar
sentido à sua vida se não for pelo trabalho, a questão a colocar perante esta
realidade deixa de ser trabalhar ou não trabalhar, para ser qual o trabalho,
quais os riscos oferecidos e quais as consequências que podem advir?
Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal “Diário do Minho” de 5 de Setembro, pág. 16
terça-feira, 10 de julho de 2012
"Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dois?", por Sílvia Oliveira
Satisfação
conjugal é, sem dúvida, um conceito subjectivo que implica ter as próprias
necessidades e desejos satisfeitos, assim como corresponder, em maior ou menor
escala, ao que o outro espera, definindo um dar e receber recíproco e
espontâneo.
Não
há dúvidas que a competência do casal depende da qualidade das relações
estabelecidas entre os conjugues, relações essas que se transformam ao longo do
ciclo de vida conjugal.
Mas, também é verdade que toda a dificuldade de ser
casal encerra ao mesmo tempo, na sua dinâmica, duas individualidades e uma
conjugalidade, ou seja, um casal contem dois sujeitos, dois desejos, duas
inserções no mundo, duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois
projectos de vida, duas identidades individuais que na relação amorosa convivem
com uma conjugalidade, um desejo, uma história de vida conjugal, um projecto de
vida de casal e uma identidade conjugal.
Então, como ser dois sendo um? Como ser um sendo
dois?
Uma condição essencial para o casal é a
adaptabilidade, que tem relação com o equilíbrio entre a manutenção de uma
estrutura estável e ao mesmo tempo flexível, com regras claras e susceptíveis
de serem negociadas e até modificadas, em resposta às mudanças da vida, que
hoje, são muitas e muito rápidas.
Um outro requisito fundamental é a expressão das
emoções que funciona como aspecto vital da comunicação de casal e que se
relaciona com sensações e sentimentos de bem-estar, contentamento,
companheirismo, afeição e segurança, factores que propiciam intimidade no
relacionamento, decorrendo da congruência entre as expectativas e aspirações
que os cônjuges têm e a realidade vivenciada no casamento.
E, nesta continuidade é importante considerar,
também, a liderança partilhada, ou seja, a reciprocidade e equilíbrio de poder
entre o homem e mulher, pois quando o desequilíbrio persiste leva a relação à
insatisfação, a sintomas de fadiga, à diminuição no desejo sexual e até
depressão, mais frequente na mulher devido à carga desproporcional de
responsabilidades.
Também a coesão é um factor de protecção, integridade
e prevenção da ruptura do vínculo. Os casais saudáveis conseguem encontrar um
equilíbrio entre proximidade e respeito ao distanciamento e às diferenças
individuais. Note-se que nos casamentos tradicionais, espera-se que as mulheres
sacrifiquem a satisfação das necessidades pessoais e de relação, à carreira do
marido, nestes casos, se alguma coesão é mantida é obra quase exclusiva da
adaptação da esposa às prioridades do companheiro. Situação bem diferente das
relações actuais em que ambos se empenham na execução dos compromissos de
trabalho e família, sofrendo o relacionamento de falta de espaço para o próprio
casal e para cada um individualmente.
Independentemente das condições apresentadas serem
importantes na vida do casal, a resolução de problemas é das situações mais
essenciais para o ciclo vital do casamento. A grande diferença dos casais que
dão certo e os que não dão certo, não é a presença ou ausência de problemas,
mas sim a capacidade de enfrentar e resolver as dificuldades que surgem na vida
a dois. Mais, enquanto no casamento tradicional as regras da relação são claras
e até congruentes com a própria família e com a comunidade, retirando-se disso
modelos e apoio, nos casais não tradicionais, experimenta-se um tipo de mudança
descontínua que muito dificulta a resolução dos problemas vividos. Assim,
surgem armadilhas sucessivas que sem resolução à vista caminham para a ruptura
de relações que tudo teriam para dar certo. Neste propósito estão, também, os
casais com baixa tolerância ao conflito que por isso mesmo, tendem a não
exprimir as diferenças, por medo que o conflito aumente e ocasione violência ou
ruptura, tendendo nessa continuidade a concordar com tudo, para se libertarem
do fracasso ou da culpa. Também existem aqueles casais que caiem em armadilhas
de “quem tem razão e quem não tem”, sem qualquer capacidade de considerar o
ponto de vista do outro. Uma outra situação que merece todo o cuidado na
relação do casal é o evitar os conflitos, pois a sua prática leva a segredos na
vida a dois. Nestes casos, os conjugues tem por hábito ver o companheiro(a)
como uma parte inseparável da sua própria identidade e existência, considerando
intolerável qualquer conflito que possa ameaçar o seu relacionamento, sendo
pois este comportamento que leva os aspectos conflituantes a ser escondidos ou
até resolvidos fora do casamento, mantendo-se o relacionamento rígido, estável
e ilusório, baseado mais na função que na satisfação mútua das necessidades
reais. Outra situação é os anos de conflitos abertos e não resolvidos ou os
falsos casais que aparecem felizes em público, mas que desenvolvem por trás
dessa aparência mecanismos sofisticados para encobrir os buracos da sua
relação, sendo a maior parte das vezes casamentos mantidos pela crença na
família e não pelos laços emocionais entre os conjugues. Esta incapacidade de
interacções eficazes e criativas para resolver os problemas dentro de uma
relação, deixa insatisfeitas necessidades pessoais e relacionais, sustentando
um estado de bloqueio e de estagnação que leva os cônjuges a não saber como
mover-se para dar o primeiro passo, perdendo com isso o potencial curativo da
própria relação.
Em
forma de termo importa deixar registado que casais satisfeitos conseguem manter
fortes laços emocionais com seu cônjuge, mudar a estrutura de poder, de papéis
e de regras no seu relacionamento ao longo da vida conjugal e em face de
situações de crise, assim como, desenvolvem padrões de comunicação adequados, o
que é considerado essencial para a satisfação conjugal de ser amado,
respeitado, sentir-se seguro, compartilhar desejos e sonhos, ter suas
necessidades físicas, emocionais e espirituais satisfeitas, bem como, ter a
possibilidade de dividir tudo isso com alguém especial ao longo da vida.
Sílvia Oliveira
Deputada Municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 7 de Julho, pág. 21
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Complexidades humanas, por Sílvia Oliveira
Não haverá maior entrave ao crescimento humano do que procurar
incessantemente a razão das dificuldades e fracassos no exterior de si mesmo.
Conhecermo-nos a nós mesmos através de quem nos rodeia é uma fonte
gratuita a jorrar conhecimento e paradoxos sobre a nossa pessoa. Todos, despidos
de preconceitos e em plena consciência, devemos saber usá-la para crescer e
atingir a plena realização do nosso ser.
A experiência da vida, na sua essência humana, permite a cada um
percorrer o caminho, descobrindo, com isso, a subjetividade que há em nós.
Mas, habitualmente, crescemos a embelezar assuntos incómodos, a
alimentar justificações infundadas sem saber enfrentar com humildade a
verdadeira causa dos problemas, enclausurando-nos em justificações para não
assumirmos as responsabilidades dos nossos atos, descuidando, assim, o nosso
ser verdadeiro e quebrando, com isso, o mais elementar dos princípios: o de
causa/efeito que nos informa que todas as ações têm em nós consequências.
Procuramos incessantemente os defeitos dos outros para justificar a
nossa incompetência, a nossa fraqueza e a nossa falta de talento.
Despimo-nos de humildade, de franqueza, e partimos para o fatalismo do
destino, na demonstração de falta de condições e na procura de causas externas
a nós mesmos, para justificar o nosso insucesso.
Esquecendo-nos que a franqueza permite “jogar limpo”, permite que mais
pessoas participem na tomada de decisão, que mais ideias existam. Permite, também,
atacar os problemas, mas de forma mais rápida e objetiva, sem ruído, sem
perturbação, sem “jogo sujo”. Em boa verdade, para se obter franqueza, esta tem
de ser alimentada, pois é assim que qualquer valor floresce.
Algumas pessoas são mais inteligentes que outras. Umas têm mais
experiência, são mais criativas; outras têm mais poder ou capacidade de
influência, mas todas, sem exceção, devem ser ouvidas e respeitadas. Ser humilde
não significa ser inferior aos outros. Significa, sim, autoconsciência e
consciência emocional, e com isto ter a capacidade de nos colocarmos no lugar
do outro. A consciência emocional traduz o não passar por cima de tudo e de
todos para levarmos a cabo os nossos ideais e realizarmos os nossos sonhos. Ter
humildade é querermos saber e aceitarmos ser quem realmente somos, como são
avaliadas as nossas ações, como são consequentes as nossas fraquezas. É, de
facto, ter a maior das inteligências.
Pobres daqueles que vêem nas suas ideias a verdade absoluta, que
rejeitam, por uma postura abusiva e inflexível, ou outros. Com isso não
conseguirão viver em sociedade, não irão comungar da partilha de felicidade que
é viver em harmonia com aqueles que nos rodeiam.
Para ser humilde é necessário praticar a humildade, ter ações e gestos
simples, como reconhecer que o nosso ponto de vista, por vezes, não é melhor do
que o dos outros e que os outros são seres como nós, com ideias e convicções,
que necessitam do seu caminho.
Em boa verdade, somos capazes de ver o mais pequeno defeito de quem nos
rodeia, mas simultaneamente somos tão limitados que não nos permitimos sequer
perceber as nossas maiores restrições.
Por maior elevação que tenhamos, olhamos para a nossa vida pelo filtro
dos nossos padrões, valores e vivências, que não coincidem exatamente e que
estão desajustados a tantos outros pensamentos, de tantos outros seres.
Partimos, na maioria das vezes, de uma educação de base com graves
deficiências, sem desenvolvermos um valor essencial para viver em harmonia com
a sociedade.
A obra da educação é, talvez, um dos principais processos que mais
condicionam o nosso desempenho futuro. Passamos por experiências na nossa infância
que muito determinam a nossa forma de estar na vida. Observamos,
recorrentemente, situações de ausência exagerada de feedback negativo ou, em muitas
circunstâncias, uma proteção extrema que inibe o desenvolvimento de cada ser
que há em nós.
Também no nosso dia a dia, a falta de franqueza limita-nos as ideias
inteligentes, bloqueia a tomada de decisão, não obtém o que de mais genuíno há
em nós, proporcionando um ambiente de animosidade em que o próprio inimigo da
prosperidade floresce internamente.
Mas, em boa verdade, ninguém se conhece a si mesmo, pois todas as nossas
ações têm, no mais recôndito do nosso ser, uma justificação plausível capaz de
enfrentar a mais cabal das contrariedades, tornando-se o maior inimigo de nós
próprios, sentenciando, frequentemente, a nossa evolução.
Também experimentamos incessantemente argumentos capazes de demonstrar
cientificamente por que é que determinado problema ocorreu, por que é que
determinado insucesso era inevitável, por que é que determinado evento adverso
surgiu. Perdemo-nos infinitamente a divagar sobre potenciais causas, justificações,
até nos sentirmos psicologicamente confortáveis e concluirmos que “tinha de
acontecer” e portanto não somos responsáveis.
Sílvia Oliveira, deputada municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Os perus políticos que nos tramam; por António Moniz Palme
Em todos os tempos, alguns elementos do topo das hierarquias,
principalmente na actividade política, acham-se na necessidade de encher o papo
como um peru e abrir a cauda em leque, não para cativar as atenções das peruas
que tentam requestar, mas para deslumbrar o comum cidadão com a pomposa
excelência que, na sua perspectiva, deve corresponder ao seu faustoso porte. E
só aparecem em público, com um luzidio acompanhamento de meninos de pasta, em
passo bem ritmado e ar empertigado, imitando saloiamente uma guarda de honra
britânica em dia da passagem de sua majestade para a respectiva coroação. Com o
seu ar distante, acham-se então o supra sumo das importâncias. Claro que o
séquito e os aduladores costumeiros, procuram agradar aos seus chefes de fila,
fazendo-lhes elogios em catadupa e comunicando-lhes as excelsas qualidades que
possuem, cantando aos seus ouvidos todo o género de dislates, para tentarem
obter alguma prebenda em paga da lisonja. Ora, só um peru emplumado, um
“nouveau riche” da política, atura e acredita nos ridículos elogios ouvidos. E
vai inchando o peito e acreditando, na sua vaidosa cegueira, que é mesmo um
verdadeiro sábio da china. Pior é que qualquer português que desempenha cargos
políticos é avaliado não pelos aduladores que nas costas sempre dizem mal, mas
pela população votante que apenas vê o resultado da sua governação. E se o
sábio emplumado não governa os bens e os interesses da república, como um bom e
competente pai de família, mal vai a situação, por mais elogios que os cretinos
dos seguidores lhe façam. Aí é que é o cabo dos trabalhos, aí é que a porca
torce o rabo como se diz na minha santa terra. Pois o local próprio para se aquilatarem
as reais qualidades dos políticos e dos governantes não é nos automóveis topo
de gama que os conduzem, pagos à nossa custa, não é na prosápia ridícula que
exibem, mas muito simplesmente nas acções que cometem e no êxito das políticas
praticadas. E se a incapacidade ficar provada, não há importância atirada aos
olhos dos cidadãos, que lhes valha. Perdem num ápice a prosápia e até a
plumagem, bem como irremediavelmente o monco vermelho que tanta importância
lhes dava e lhes adornava o bico, isto é, o nariz, murcha à sua ínfima e triste
espécie.
Seria aconselhável que todos os candidatos a políticos lessem uma das
epístolas de Horácio, que sentencia que o bicho homem deve procurar ser como os
aduladores o pintam, “ Cura esse quod audis”, assim reza a frase em latim, e
não acreditar nos falsos elogios que ouve, por mais que lhe agradem. Bem
andariam os interesses da comunidade com essa preventiva terapêutica…! O mal é
que este tipo de imbecis que acreditam em tudo o que lhes dizem, se renova
permanentemente como a praga do gorgulho do feijão.
António Moniz Palme - 2012
Um dos históricos fundadores do PPM. O ilustre popular monárquico Dr.º António Cardoso Moniz
Palme, advogado, consultor jurídico, que nas horas livres gosta de estudar, de
ler, de escrever e de pintar, foi Deputado da Assembleia da República pelo PPM
nos tempos da AD (Aliança Democrática).



















