Mudar o regime Servir Portugal

Manuel Beninger

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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Uma releitura de Dom João VI

Nosso objetivo é demonstrar que a figura caricata de Dom João VI como rei glutão, fujão e medroso não faz jus aos méritos desse grande príncipe. Na verdade, foi um dos maiores estadistas de sua época e do Brasil. Nota-se, felizmente e finalmente, que justiça começa a lhe ser feita por ocasião da comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Livros, eventos e debates estão permitindo que as luzes se façam.
É importante retroceder no tempo e ter claro o panorama europeu entre o final do século XVIII e início do XIX, período marcado pelo furacão da Revolução Francesa, seguido de outro chamado Napoleão. Pouco antes, entre 1750 e 1777, Portugal foi comandado pelo Marquês de Pombal que se empenhou na modernização, ainda que autoritária, do país, tendo tido a ousadia de enfrentar a influência asfixiante da Igreja Católica sobre quase todos os setores da vida laica portuguesa. Dom João VI nasceu em 1776, tendo vivido os 10 primeiros anos de existência nesse Portugal que buscava se livrar do atraso sob a batuta de Pombal. Após a queda deste em 1777, pessoas formadas por ele continuaram a exercer influência poli-tico-administrativa ainda que no geral o país estivesse novamente sob a poderosa influência do clero, beneficiado pela religiosidade extremada de Dona Maria I, que assumiu o trono após a morte do rei Dom José I. Para se ter uma idéia da mentalidade que se impôs, merece registro o fato de que a rainha, depois enlouquecida, não autorizou que se usasse a vacina já existente contra a varíola contraída pelo herdeiro do trono porque isso seria interferir nos desígnios da Providência Divina. E assim morreu o futuro rei de Portugal, criado sob o signo das luzes que Pombal lhe incutira. Dom João VI foi criado exposto a esses dois mundos: o da religiosidade extremada e carola e o do iluminismo europeu. E nunca se entregou totalmente a nenhum dos dois. Seu senso de equilíbrio nas horas críticas decorreu dessa dicotomia sempre presente em sua vida.
Posto isto, vamos avançar no tempo e verificar as condições objetivas em que se encontrava o país no início do século XIX. A melhor expressão que me ocorre é a do Portugal-mexilhão, literalmente espremido entre o mar, representado pelo poderio naval inglês, e o rochedo (terra), em que a França dava as cartas com seus exércitos imbatíveis até então. Este é um primeiro ponto a ser destacado: o ambiente muito hostil à tomada de decisões já que o país estava submetido àquele tipo de equilíbrio que os economistas definem como o do fio de navalha. Ou seja, qualquer passo em falso poderia ser fatal.
Nossa habitual capacidade de só enxergar o lado vazio do copo nos leva a ver no lento processo de tomada de decisão de Dom João VI apenas o homem de personalidade indecisa e protelatória, como se fosse realmente possível tomar decisões num estalar de dedos em situação tão delicada e difícil. Ele estava enfrentado dois gigantes ao mesmo tempo. A respeito de um deles, Napoleão, Wellington, que o venceu em Waterloo, dizia que ele sozinho valia 50.000 soldados em campo de batalha. Curiosamente, quando se trata da rainha Elizabeth II, que viveu no pós-guerra, num mundo bem menos tumultuado que o de Dom João VI, sua demora em tomar decisões é vista como a atitude de pessoa ponderada e equilibrada. Dois pesos e duas medidas para esvaziar ainda mais o nosso copo.
A idéia da transferência da sede do Império Português para o Brasil era antiga. O Marquês de Pombal foi mais um dos que compraram essa proposta. Ele havia aconselhado, em época bem menos tumultuada, a Dom José I a se transmigrar para o Brasil, onde estaria, segundo ele, o futuro de Portugal. As circunstâncias propícias só se deram naquele início do século XIX. Ao invés de se deixar paralisar pelo medo, Dom João VI fez uma retirada estratégica. Essa decisão tornou Portugal inconquistável mesmo que a metrópole fosse, como o foi, fisicamente ocupada. Mas a cabeça do Império Português estava erguida e a salvo, diferentemente da situação de vários monarcas europeus que caíram prisioneiros de Napoleão. Tanto assim o foi que este último disse que o Príncipe Regente português foi o único que o enganara. Sendo Napoleão quem era, temos que reconhecer que foi uma tacada de mestre de nosso príncipe.
Dom João VI veio para cá com o intuito de fundar um grande império, benéfico a todos, como foi comunicado ao povo português antes de partir para o Brasil. E se empenhou em cumprir a promessa.
Embarcaram com Dom João VI entre 10 e 15 mil pessoas. Nobreza, conselheiros reais e militares, juízes, advogados, comerciantes e suas famílias. E ainda médicos, engenheiros, bispos, padres, damas de companhia, pajens, cozinheiros e cavalariços. Falar apenas no lado corrupto da corte portuguesa, como se as demais européias fossem primores de honestidade, nos leva, mais uma vez à síndrome do lado vazio do copo, impedindo-nos de ver que o Brasil estava recebendo na época uma dose maciça de capital humano vital para nosso desenvolvimento. Isso para não falar de capital financeiro.
Dom João VI trouxe para cá cerca de 21 milhões de libras esterlinas, ou 80 milhões de cruzados, ou cerca de metade do meio circulante português. Sem contar os diamantes estimados na época em 100 milhões de dólares pelo cônsul americano em Lisboa. Caso não o fizesse, o general invasor Junot teria levado tudo para o tesouro francês, o que teria sido uma ajuda substancial ao esforço de guerra francês. A prova disso é que Junot derreteu e levou para Paris a prataria das igrejas deixadas no cais na correria de última hora da partida.
A chegada em salvador na Bahia ocorreu em 22 de janeiro de 1808. Não foi obra do acaso. Dom João VI precisava mais que nunca de um país unido em torno da Coroa portuguesa. Primeira medida: abertura dos portos às nações amigas. O Brasil deixa de ser colônia e passa a ser um país independente. Certamente o primeiro dos grandes benefícios resultan-tes de sua vinda. Aproveita e cria a Escola de Medicina de Salvador. A despeito dos pedidos, segue para o Rio de Janeiro, ondechega a 7 de março de 1808. Desembarca no dia 8 , tendo uma recepção apoteótica pela população que o tocou profundamente. Mandou celebrar um Te Deum na Igreja do Rosário dos Homens Pretos. Ficou fascinado com os dotes musicais do Padre José Maurício, um mulato a quem prestigiou durante os 13 anos em que esteve aqui com uma pensão, não se deixando conta-minar pelos fortes preconceitos raciais europeus.
No Rio de Janeiro, aquele príncipe “lerdo” passa a agir como um furação. Os ares do Novo Mundo lhe fizeram bem. Merece registro sua equipe de trabalho, em especial o ultra-competente Dom Rodrigo de Souza Coutinho, o futuro Conde de Linhares, afilhado do Marquês de Pombal. Foi ele, Pombal, que, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, se aproximou da elite brasileira, mandando brasileiros estudar na Universidade de Coimbra, entre eles nosso José Bonifácio de Andrade e Silva. Isto desmen-te uma visão um tanto simplista que via na corte portuguesa a mais atrasada da Europa na época. O espírito de Pombal continuava a vagar pela corte até mesmo pela proximidade no tempo histórico.
Merece registro a obra de Dom João VI no Brasil: criação de escolas superiores (medicina no Rio e na Bahia), inclusive escolas militares, entre elas a naval; bibliotecas no Rio de Janeiro, 60.000 volumes da chamada Biblioteca dos Reis, vinte vezes maior na época do que a do Congresso Americano, oriunda dos 5.000 livros de Thomas Jefferson, e na Bahia para onde enviou acervo de porte para a Faculdade de Medicina de Salvador, que dobrou de tamanho na época; criação do Arquivo Nacional; implan-tação do Jardim Botânico, onde aclimatou inúmeras espécies através de pesquisas sistemáticas; apoio e proteção a patentes de invenções; aber-tura de inúmeras estradas, interligando o país por terra; imprensa régia; autorização para a circulação de jornais; a criação de uma escola para moças; bolsas de estudo para estudantes pobres; a já mencionada aber-tura dos portos às nações amigas; incentivo à implantação de novas fábri-cas (pólvora, fundições, etc.), suspendendo a proibição formal de indús-trias no país que só durou de 1785 a 1808 e ainda a revogação de privilégios concedidos a reinóis. Enfim, ele criou uma Nação, dotando-lhe das instituições indispensáveis para tanto, dentre elas a unidade linguística ainda não-consolidada. Imitar o falar da Corte virou moda generalizada.
Cabe aqui um momento de pausa. Dom João VI não nos legou apenas o lado material (na época, nossa renda per capita se equiparava à americana), trazendo para cá metade do meio circulante português e ainda os diamantes que daqui saíram, mas ele nos legou sobretudo instituições.
Mas, afinal, o que são instituições em linguagem cristalina? Douglas North, prêmio Nobel em economia, nos responde: “Instituições são as res-trições estabelecidas por nós de forma a estruturar a interação humana. Elas são constituídas de restrições formais (regras, leis, constituições), informais (normas de comportamento, convenções e códigos de conduta auto-impostos) e suas características impositivas. Em conjunto, as insti-tuições definem a estrutura de incentivos das sociedades e, especifica-mente, das economias . As instituições e a tecnologia empregada determi-nam os custos de transação e transformação que se somam aos custos de produção.”
Para se ter noção de como a questão institucional pesa na explicação do padrão de vida e riqueza de um povo, basta citar um estudo recente e conclusivo da ONU. Esta pesquisa, de alcance mundial, demonstra que, atualmente, 77% da riqueza produzida no mundo são explicados pelo capital intangível (capital humano e qualidade das instituições formais e informais de um país) contra apenas 5% dos capitais naturais (recursos naturais) e 18% dos chamados capitais produtivos (bens de capital: máquinas e equipamentos).
Este estudo diz muito sobre o legado de Dom João VI e os efeitos de longo prazo dos 13 anos em que ele aqui viveu e nos governou. Ainda que tenha levado de volta apenas 5 dos 22 milhões de libras esterlinas ao retornar a contragosto a Portugal, não é este o ponto crítico da questão. O cerne do processo de crescimento sustentável, como vimos, passa básica-mente pelo acúmulo de capital intangível. Concretamente, no caso brasi-leiro, isso se manifestou de diversos modos. Das 15 mil pessoas que vieram com ele, apenas 5 mil o acompanharam na viagem de volta. A qualidade dos homens públicos, como José Bonifácio e muitos outros, oriundos da corte joanina, deram o tom do primeiro e segundo reinados. Eles foram importantíssimos para dar respaldo político-administrativo ao jovem Imperador Dom Pedro I. Deles partiu a implementação da idéia genial do Poder Moderador inserida em nossa constituição imperial. Era o pouvoirroyal de Benjamin Constant, o suíço, que existe na prática até hoje nos países europeus como instrumento indispensável para debelar crises. Quer em monarquias, quer em repúblicas européias, as chefias de Estado e de governo são poderes independentes, com o primeiro entrando em ação como poder moderador quando surgem as crises, como já ocorreu na Espanha na rebelião militar golpista sufocada pelo rei Juan Carlos.
Outro legado de valor inestimável foi a manutenção da integridade do território nacional. Historiadores são quase unânimes em afirmar que o Brasil teria quase que certamente se fragmentado em 4 ou 5 países sem a vinda de Dom João VI. A união econômica (e política, no futuro) dos países europeus hoje dá bem a medida do acerto em nos mantermos unidos em um único país. As vantagens econômicas da união são evidentes.
Estes mesmos homens prepararam outros como o Marquês de Itanhaém, tutor de Pedro II por 7 anos contra apenas 2 de José Bonifácio. As primorosas Instruções aos preceptores de Pedro II, elaboradas por Itanhaém juntamente com Frei Pedro de Santa Mariana, resistem à passagem do tempo. Ainda hoje seriam atuais para educar nossa juventude. Elas nos permitem entender por que Dom Pedro II se saiu tão bem durante os quase 50 anos de seu governo constitucional e demo-crático.
Ainda no que tange aos efeitos de longo prazo da presença de Dom João VI no Brasil, há que se reconhecer que o poder moderador antecipou de quase um século o que poderíamos chamar de Princípio de Karl Popper, filósofo austríaco radicado na Inglaterra por muitos anos. Para Popper, o fundamental era que maus governos durassem pouco. E não que o poder, para atender ao interesse público maior, fosse exercido por aristocratas, trabalhadores, operários, poetas ou filósofos. A besteira e a corrupção são democráticas e podem contaminar qualquer classe social. A constituição imperial de 1824 tinha dispositivos que permitiam abreviar a vida de maus governos. Nenhuma de nossas constituições republicanas preservou este dispositivo tão saudável para manter em alta a auto-estima dos brasileiros.
Não é surpreendente que o Brasil pudesse resolver em 24 horas, no século retrasado, uma crise como a do mensalão via queda do gabinete ou dissolução do congresso com convocação imediata de eleições, e que hoje se veja sem instrumentos legais para pôr a casa em ordem a não ser recorrendo ao primitivo golpe de Estado? Em países civilizados, um governo cai porque não detém mais a confiança do Parlamento ou este é dissolvido porque não é mais digno da confiança popular. Não se trata de ter que provar em juízo, como fazemos aqui, que o político A ou B prevaricou, postergando a punição para o Dia de São Nunca.
Para terminar, retomemos a visão simplista do glutão, medroso e fujão. Glutão ele era mesmo, mas isso nunca o impediu de exercer sua sagacidade. Outros estadistas europeus muito espertos também o foram. Quanto ao seu lado medroso, o que importa saber é se o medo o imobili-zava. Certamente não foi este o caso tanto que se lançou aos riscos nada desprezíveis na época de uma travessia transatlântica para vir para cá. De mais a mais, todos nós temos nossos medos. A questão é saber se nos congelam. Se não for este o caso, trata-se apenas de uma reação humana normal em nossas vidas com a qual convivemos e superamos. Quanto à pecha de fujão, não se pode, por exemplo, achar genial incendiar Moscou e bater em retirada, como fez o general russo Kutusov, para deixar Napoleão sem víveres, e encarar a retirada estratégica de Dom João VI para cá como coisa de príncipe medroso que abandonou o seu povo.
Na verdade, Dom João VI foi, exagerando apenas um pouco, uma espécie de nave interestelar que aqui pousou trazendo-nos de presente os ingredientes necessários à construção de uma grande nação. Se não soubemos aproveitar, pouco adianta terceirizar a culpa. Pessoas adultas são capazes de assumir seus próprios erros e corrigi-los. Oxalá possamos no futuro retomar os bons hábitos propiciados pelas instituições que já tivemos no passado. Dom João VI ficaria feliz, onde quer que esteja, com a volta do filho pródigo. Mais ainda: adulto e responsável.

Gastão Reis Rodrigues Pereira

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Entrevista exclusiva concedida este mês no Rio de Janeiro pela Família Real Portuguesa

Dom Afonso, Dona Isabel, Dona Maria Francisca e Dom Dinis: Família Real Portuguesa no Rio
Créditos: Juliana Rezende

Glamurama recebeu um convite inesperado: entrevistar a família real de Portugal, que depois de passar por Tailândia, Camboja, Bali e Timor Leste, estava até esse fim de semana no Rio de Janeiro, completando um mês de viagens. Vieram para o casamento da princesa Amélia de Orleans e Bragança com o escocês Alexander James Spearman, realizado no último dia 16 na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, e se hospedaram no Pestana, em Copacabana. É que o hotel recebeu um selo real de qualidade: “By appointment, entende? Meu marido reconhece que a rede Pestana representa bem Portugal”, nos explica a duquesa de Bragança, dona Isabel, mulher de Duarte Pio de Bragança, que seria o rei de Portugal, caso a monarquia voltasse. Ele não veio ao Brasil. Nosso encontro – totalmente informal, na própria suíte que ocuparam – foi apenas com a duquesa e seus três filhos, os príncipes Dom Afonso, 18 anos, o herdeiro, Dona Maria Francisca, 17, e Dom Dinis, de 14, que nunca tinham sido entrevistados antes, de acordo com a mãe. Ela, aliás, foi criada em São Paulo, dos 9 aos 24 anos: seus pais – que se dividiam entre Portugal e Angola - decidiram vir para o Brasil em 1974 “por conta da revolução”. Ah, dona Isabel foi pedida em casamento em Ilha Bela, sabia?

Por marketing, por lógica e pelo lado emocional
 ”Se a monarquia voltasse, seria muito bom para o país. Cada vez que muda o presidente, tem que começar de novo as relações com o mundo inteiro. Quando você tem um rei, um príncipe, ele vai crescendo e conhecendo as pessoas. Se pensar em marketing… Você sabe quem são todos os reis da Europa, mas não quem é o presidente da Alemanha”, exagera a duquesa. ”Duvido que saiba. Ninguém sabe. E é o país mais forte da Europa. Além disso, o povo se vê na família, uma família que está aí para o que der e vier e não vai embora, enquanto o presidente fica quatro, cinco anos e depois o outro que resolva. A monarquia é muito melhor para o povo, sobretudo nessa época de globalização, em que estamos perdendo um pouco da nossa cultura. A gente fica pensando em como vamos salvar nossa cultura, já os presidentes estão mais descansados. A nível emocional… Nunca pensei que ia casar com meu marido e sempre fui a favor da monarquia. Até por lógica, é um sistema muito mais importante para lançar um país no mundo. Uma vez meu marido teve uma reação furiosa ao entrar em uma loja e ver que não tinha nenhum produto português. Foi a reação de um homem apaixonado. É importante não se deixar ficar blasé.”

“A pátria encarnada em uma família”
“A nossa situação em Portugal não e oficial, e oficiosa, o que dá bem mais trabalho. Eu me protejo um pouquinho, mas meu marido viaja sempre pensando em como pode promover a cultura portuguesa, criar ligações com países de língua portuguesa.” Perguntamos se ela cria os filhos como príncipes ou como cidadãos do mundo. “Passamos nossos valores cristãos. Somos católicos, vamos a Fátima… E nos preocupamos em dar para eles noções de responsabilidade. A gente não pode pensar só na tradição. A tradição e a história ajudam a gente, mas para se lançar para o futuro, para aprender e ser gente da nossa época. Não fiquem pensando que é só privilégio. Pelo contrario: é muito mais obrigação. É esse espírito que a gente tem. Eles estudam em um colégio normal, têm amigos normais. Até andam de metrô. A maioria dos príncipes é assim. Tem essa ideia de fora de que estão em uma redoma, por alguns exemplos que existem. Mas a maioria são pessoas normais, que trabalham. E somos uma referência, a pátria encarnada em uma família. As pessoas lá me perguntam como estão os ‘nossos meninos’. Não são meus, são de todos.”
Pra quem gosta de escândalo…
“Pra quem gosta de escândalo, nossa família é um pouquinho sem sal. Eles saem, se divertem, mas por enquanto não há nada de escândalo. Espero que não haja.” A gente quis saber se os adolescentes são alvo de paparazzi. “Não porque sempre tivemos esse contato muito próximo com as pessoas. Quando eles eram pequenos, cada revista queria fazer a sua foto. Mas eles ficavam muito cansados. Então hoje temos o nosso fotógrafo oficial. A gente tira foto no Natal, em ocasiões especiais, e divulga. Isso porque as pessoas gostam de seguir a família. Mas não aparecemos o tempo inteiro. Não é muito saudável.  E você viu aqui como eles ficam presos na hora de tirar foto. Com o nosso fotógrafo, se sentem mais à vontade. É mais prático.”

Se não vira ateu e republicano
Perguntamos se Dom Afonso é criado para ser rei, caso a monarquia volte. “De certa maneira. Ele fez 18 anos. Em Timor houve uma cerimônia. Desceram a montanha, vestiram ele todo, puseram uma roupa tradicional. Foi muito bonito. Houve um pacto e o rei de lá trata os outros reis como primos. Então não importa essa questão de não ser mais colônia. Eles não pertencem mais a Portugal, mas tem um afeto. O embaixador da China até há pouco tempo quando vinha a Portugal primeiro cumprimentava meu marido, e depois ia se apresentar. A relação milenar, ou secular, entre Portugal e China era muito mais importante. Eles levam muito em conta essa ligação histórica.” Tudo bem, mas Dom Afonso gosta de ter essa função? ”Ele tem que gostar, mas a gente fala: se você não quer, tem sempre alguém que pode tomar o lugar. Temos muito cuidado porque tanto religião quanto monarquia a gente tem que dar em dose certa, se não vira ateu e republicano.  A gente faz devagar, mostrando que sem duvida é um serviço, e não um privilégio. ” Comentamos que ele é o mais tímido dos três. “Talvez… Mas é o mais observado também, o que é sempre mais complicado.”
E as joias da coroa?
É claro que perguntamos sobre as joias da coroa portuguesa, glamurette! “Usei no meu casamento um diadema que foi da última rainha de Portugal, dona Amélia. É uma joia muito bonita e bem guardada. Como é uma peça histórica, nunca viajei com ela para fora de Portugal. Só usei no casamento e em fotografias oficiais, mas nem daria para usar mais. É muito grande. A maioria das joias não ficou na família, nem as propriedades. Em Portugal, existe a fundação da Casa de Bragança, e todo mundo pensa que é nossa. Não é. Na época do ditador Salazar, ele pegou as coisas da família e pôs na fundação. Também tem peças em museus. O que está conosco, a gente preserva. Isso tudo passa sempre para o filho mais velho, mas a minha sogra, dona Maria Francisca, era da família imperial do Brasil e, quando casou, recebeu alguns presentes. Esses eu vou passar para a minha filha, Francisca.”

Intelectual de segunda
Por fim, perguntamos o que Portugal pode aprender com o Brasil.  “Os portugueses são um povo sério, trabalhador, mas não são tão à vontade. E o que me chocou muito quando voltei a Portugal… No Brasil, e nas Américas, uma pessoa pode ter sua religião e ser intelectual. Não é conflitante.  Na Europa, se você fala que tem religião é considerado um intelectual de segunda.  Mas Portugal está aprendendo.”
* No final do nosso tempo com a família, conseguimos conversar um pouco com os três príncipes.

Dom Afonso, príncipe da Beira, o herdeiro do trono
Perguntamos como ele se sente no papel de herdeiro da coroa. “Não vou mentir: um pouco nervoso. Penso no peso, na responsabilidade se a monarquia voltar pra cima de mim e para o resto da família. As pessoas ficam de olho em nós. Se nos comportamos mal, fazemos alguma coisa fora do lugar… É um pouco demais, mas por um lado gosto de ser o mais velho porque posso tomar conta dos meus irmãos. Por outro lado, eles não gostam muito que eu fique em cima deles. Gostaria de fazer as mesmas coisas que meu pai faz, conseguir o que ele consegue. O holofote é um pouco chato porque de vez em quando gosto de ficar relaxado, descansado, mas tenho que ter sempre o cuidado de não ser mal interpretado. Se a monarquia voltar, por um lado, fico contente, não só por nós… Não é sempre assim, mas dizem que em um país de república, quem tem poder e dinheiro está contente e o povo descontente. Na monarquia, o povo esta contente e quem está no poder estar cansado. Há mais controle… Quem governa é para manter as pessoas contentes.” Dona Isabel interrompe para explicar melhor o raciocínio do filho. “Tem uma metáfora… A república é como um jogo de futebol, uma partida entre dois grupos, na qual o árbitro foi escolhido [ou eleito] por um dos times. Na monarquia, como o rei está por cima dos partidos, é mais isento… Isso que ele está querendo dizer.”

Dona Maria Francisca
Comentamos que a mãe disse que espera que um dia ela use em seu casamento o tal diadema da rainha Amélia. “Gosto imenso dessas coisas e também acho engraçado uma joia passar de geração em geração. Quem sabe um dia minha filha também vai usar.” De que mais ela gosta ”imenso”? “De música: Rolling Stones, Phoenix, indie rock. Minha única responsabilidade hoje é ser boa aluna. É minha prioridade. Tenho a preocupação de me comportar bem, ser responsável. E faço voluntariado. Antes fazia no colégio. Hoje participo de jantares para angariar fundos para instituições que recuperam toxicodependentes. E quero ir para a África ajudar lá.” E aí foi a vez de Afonso interromper: “Você quer é ir à praia lá.”

Dom Dinis
“Ser um terço do meu pai já seria um sucesso. Agora é mais responsabilidade com estudos do que com festas… Podemos ter redes sociais. Nós temos. Mas precisamos tomar cuidado com o que publicamos, como qualquer pessoa. Não tenho propriamente um ídolo na música porque esses artistas às vezes fazem coisas…” Que príncipe não faz? “Isso, mas nem pessoas normais fazem. Meu ídolo é meu pai.”
Fonte: Glamurama / Juliana Resende / Joana Dias Pereira


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quinta-feira, 20 de março de 2014

Empresa lança anúncio inspirado no primeiro Rei do Império do Brasil

acima
Para assinalar a chegada ao Brasil, com a abertura de dois escritórios, São Paulo e Curitiba, a Orange Popcorn lançou um anúncio inspirado no rei D.Pedro I.

Conhecido como "o Libertador" 1798-1834), o monarca foi o fundador e primeiro Rei do Império do Brasil. Como rei D. Pedro IV, reinou brevemente em Portugal, ficou conhecido o "Rei Soldado".
Assim, na campanha de apresentação ao Brasil, o conceito "passa por, ao chegarmos a um país onde o marketing e a publicidade são Reis, escrever uma nova história ou ajudar a rescrever a existente", explica Bruno Nunes, CEO da Orange Popcorn.

Agência de marketing e comunicação global abre no Brasil, onde espera faturar 400 mil euros no primeiro ano. Já está em Angola e Moçambique.

A agência trabalha marcas como Sporting Clube de Portugal, Centrum, Unicef, Santander, Optimus, TMN, Zon Rádio Comercial ou Zippy e outras.


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" A república fracassou"

Entrevista com dom Bertrand de Orleans, número dois na linha sucessória da família real brasileira que sonha com o retorno da monarquia
Trineto de dom Pedro 2o e bisneto da princesa Isabel, o príncipe dom Bertrand de Orleans, 70 anos, número dois na linha sucessória da família real brasileira, abomina chuchu, odeia rock e ainda sonha com o retorno da monarquia. O sistema caiu em 1889, com a Proclamação da República, mas, para ele, o os reis eram mais honestos. “Isso é algo para o futuro, pois a república fracassou. Uma prova são os inúmeros casos de corrupção. A monarquia se destaca pela moralidade pública”, comparou ele, que no fim de semana visitou Florianópolis, onde participou do 3o Encontro Monárquico Sul-brasileiro. Argumenta que, em 1993, 13% da população disseram sim ao retorno do império. “O que era sonho passou a ser alternativa e talvez até solução”, avalia ele, irmão de dom Luís Gastão, que assumiria o poder se o Brasil voltasse a ser império. Reservado, o príncipe só não tem de discreto o nome: Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança e Wittelsbach. “Muita gente reclama que não cabe nos documentos”, brinca ele. Solteiro, nunca se casou. Entrega-se inteiramente a divulgar os ideais monarquistas dentro e fora do Brasil. No tempo livre ele lê de preferência livros de história, que ele tenta mudar pregando a volta da monarquia.
Por que restaurar a monarquia? Quais os defeitos do sistema republicano?
O objetivo da monarquia é criar na nação o clima de uma grande família, estimulando as qualidades do povo e inibindo suas más tendências. Há uma grande diferença entre a moralidade pública dos tempos do império e dos dias atuais. Ruy Barbosa, que redigiu o decreto que proclamou a república, depois se arrependeu do que fez. Dizia que enquanto na monarquia havia uma escola de estadistas a república era uma praça de negócios. Na época havia mais liberdade de imprensa e uma democracia mais autêntica. Havia quatro poderes, Executivo, Legislativo, Judiciário e o Moderador, conduzido pelo imperador que dava a harmonia entre os poderes. Hoje o Executivo é quem manda. Além do mais, constitucionalmente, o imperador tinha menos poderes que o presidente da república tem hoje. Tinha grande influência, isso sim, principalmente para o bem. No Brasil, a república fracassou. Basta ver os atuais escândalos e o caos político em que vivemos.
Em 1993, 13% da população disseram sim ao retorno da monarquia, em plebiscito. A maioria esmagadora optou pela permanência do república.  Ainda acredita no retorno do sistema mesmo assim?
Não foi derrota. Foi a primeira batalha. Antes do plebiscito o retorno do império era encarado como um sonho. Agora pode ser visto como alternativa e, para muitos, a solução. Hoje é difícil encontrar alguém que diga que a república deu certo. A monarquia não é algo para agora, é algo para o futuro. Um dia, durante palestra nos Estados Unidos, criticaram a monarquia, dizendo que no regime republicano qualquer um pode ser presidente e que todos podem votar para escolhê-lo. Dizer que qualquer um hoje pode ser presidente é a mesma coisa que dizer que qualquer pessoa pode ganhar na mega-sena. E é questionável o argumento de que nós escolhemos o chefe de Estado. O que a gente faz é optar por duas ou três opções postas pelos partidos.
O governo brasileiro dá algum tipo de ajuda financeira aos príncipes herdeiros?
Nada. Quando a república foi proclamada o governo confiscou todos os bens da família real. O processo mais antigo da Justiça brasileira é o nosso, pois a princesa Isabel tinha um bem pessoal que era a sua residência, hoje o Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Pedimos reintegração de posse em 1891, então o processo já dura 120 anos.
Fonte: Notícias do Dia

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terça-feira, 18 de março de 2014

Associação Portuguesa de Beneficência comemora 160 anos

Detalhe da fachada do prédio do Hospital Beneficência Portuguesa

Nesta segunda-feira, às 19h, para comemorar seus 160 anos, a Associação Portuguesa de Beneficência de Porto Alegre recebe, na Assembleia Legislativa, convidados para um coquetel e exposição temática assinada por Nádia Raupp Meucci. A associação iniciou as atividades em 1854. Na Capital, um dos mais antigos hospitais, data de 1868, quando foi inaugurado o prédio da Avenida Independência, que começou a ser construído um ano antes.
Fonte: Adivo Paim Filho


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sábado, 8 de março de 2014

A Esquadra Real e a Deslocação da Corte Portuguesa para o Brasil

Composição da Esquadra Real Portuguesa 
29.11.1807 - 23.12.1808

A Esquadra Real Portuguesa

 

A decisão para o embarque só foi tomada quando chegou a Lisboa, em 24 de Novembro de 1807, um exemplar do jornal francês Moniteur, enviado de Londres pelo Embaixador Don Domingos de Sousa Coutinho, em que Napoleão afirmava que a casa de Bragança tinha deixado reinar Portugal. A 26 de Novembro, com o exército do General Junot em Abrantes, o Governo tem conhecimento da invasão e publica um decreto onde eram expostos os motivos que levavam oPríncipe Regente a partir para o Brasil. No mesmo dia iniciou-se o embarque que se concluiu no tempo recorde de 48 horas. De notar que os preparativos secretos desta partida, com a transferência de mobiliário, arquivos, e toda a volumosa documentação necessária à gestão do Reino, haviam sido iniciados cerca de um ano antes... Os primeiros navios que suspenderam, no início dos alvores de 28, foram as naus ‘Medusa’ e ‘Martim de Freitas’ mareando de forma a passar junto dos 11 navios russos do Almirante Seniavin então arriados em Lisboa e fundeados na Junqueira, com o intuito de se aperceberem das suas intenções, estes, apesar de serem aliados de Napoleão, seriam espectadores passivos da saída dos navios. A esquadra, detida por ventos contrários saiu a barra a 29 de Novembro, 18 horas antes da entrada do General Junot em Lisboa. Constava de 8 naus, 4 fragatas 12 brigues e uma galeota, acompanhada de 31 navios mercantes com mais de 15.000 pessoas, comandada pelo Chefe de Esquadra Manuel da Cunha Sottomayor. Quando o General Junot entrou em Lisboa só teve ocasião de observar, ao longe, a esquadra portuguesa. Os franceses perdiam assim a primeira cartada, não aprisionavam a Família Real nem se apoderavam da esquadra portuguesa. Don João deixava ordens para que se não resistisse aos invasores, evitando o inútil derramamento de sangue e deixava nomeada uma Junta de Governo. No Tejo tinham ficado ainda 5 naus a necessitar reparações e os navios russos do Almirante Seniavin, no entanto a grande maioria das unidades das marinhas de comércio e de guerra portuguesas estava fora do alcance dos franceses. Embora muito castigados por sucessivos temporais de grande violência (que lhes causaram graves avarias) chegaram todos ao seu destino com duas excepções; a nau 'Príncipe do Brasil' que arribou a Plymouth para receber fabrico e a escuna 'Curiosa' que regressou a Lisboa com água aberta. Isto reflecte, por um lado, a qualidade e experiência dos seus oficiais e guarnições, e por outro, a excelência dos seus projectos e dos métodos de construção naval portuguesa que, desde o século XV preparava navios para navegarem no alto mar em condições de tempo muito difíceis. As forças navais que saíram do Tejo, sob o comando do Vice-Almirante Manuel da Cunha Sottomayor, sendo Ajudante-General o Chefe de Divisão Joaquim José Monteiro Torres, compunha-se das seguintes unidades: Naus de linha, ‘Príncipe Real’ comandada por Francisco José do Canto e Castro, ‘Rainha de Portugal’ comandada por Francisco Manuel de Sottomayor, ‘Príncipe do Brasil’ comandada por Francisco de Boorja Salema ‘Medusa’ comandada porHenrique da Fonseca Prego, ‘Conde Don Henrique’ comandada por José Moreira de Almeida, ‘Martins de Freitas’ comandada por Don Manuel Meneses, ‘Afonso Albuquerque’ comandada por Inácio da Costa Quintela, ‘Don João de Castro’ comandada por Don Manuel José. Fragatas, ‘Minerva’ comandada por Rodrigo José Ferreira Lobo, ‘Golfinho’, comandada por Luís da Cunha Moreira, ‘Urânia’ comandada por Don João Manuel. O brigue ‘Vingança’ comandada por Diogo Nicolau Keating. A escuna ‘Curiosa’ comandada por Isidoro Francisco Guimarães. E a ‘Thétis’ comandada por Paulo José Miguel. Na nau ‘Príncipe Real’, que era a de maior tonelagem, embarcaram a Rainha Don Maria I, o Príncipe Regente, o príncipe da Beira e mais os infantes Don Miguel e Don Pedro Carlos seguidos pelos marqueses da Aguiar, Vargas e Torres Novais, e os conselheiros de Estado Don Fernando José de Portugal. Na nau ‘Afonso Albuquerque’ vieram a Princesa regente, a princesa da Beira e as infantas Dona Maria Isabel, Dona Maria Assunção e Dona Ana de Jesus Maria, acompanhadas pelos condes de Caparica e Cavaleiros. Na nau ‘Rainha de Portugal’ se acomodaram a Princesa do Brasil, viúva, e as infantas Dona Isabel Maria, Dona Maria Francisca e Dona Mariana, acompanhadas pelo marquês de Lavradio. Nas outras embarcações vieram os seguintes titulares: Anádia, Belmonte, Belas, Cadaval, Penalva, Pombal, Pombeiro, Redondo, os conselheiros de Estado Antonio de Araujo de Azevedo, Don João de Almeida, Don Rodrigo de Souza Coutinho, General João Forbes Skellater, desembargador do Paço Tomas Antonino de Vilanova Portugal e monsenhor subdiácono Joaquim da Nóbrega. O embarque da Família Real Portuguesa para o Brasil, em 29 de Novembro de 1807, Don João e a família real e mais de 15.000 pessoas embarcavam em Portugal com destino ao Brasil, os navios ingleses que navegaram com a esquadra portuguesa foram o 'London', 'Marlborough', 'Monarch' e o 'Bedford', sob o comando em chefe do Vice-Almirante Grahan Moore. Ao todo, mais de 70 navios haviam deixado o porto de Lisboa. A frota portuguesa tinha aproximadamente 55 navios, dentre estas, um navio de mantimentos, 25 navios mercantes que costumavam fazer o comércio com o Brasil e 20 navios de guerra levando fuzileiros navais para a protecção da frota. Os restantes eram navios ingleses encarregados de escoltar todo o grupo. Não havia restado nenhuma embarcação de peso no porto de Lisboa que pudesse ser confiscado pelos franceses. Além dos navios que partiram, o resto da frota portuguesa estava retido nos portos das colónias por ordem real para que não fossem capturados. Antes da saída da frota, tinha partido, na frente uma embarcação menor e mais veloz o brigue ‘Voador’, com a missão de avisar o Vice-Rei do Brasil que a corte portuguesa estava a caminho do Rio de Janeiro para ali se instalar. 

  

Em Lisboa nesse dia de 29 de Novembro de 1807, chegava a notícia de que tropas francesas comandadas pelo general Junot tinham invadido Portugal pela fronteira da Beira Baixa pela linha direita do Tejo, essa notícia levou o pânico à corte. Os fidalgos organizaram-se e conseguiram levantar milhões de cruzados em ouro e diamantes, além de cerca da metade do dinheiro em circulação no reino. Conta-se que a única mostra de lucidez foi dada por Dona Maria I, a louca mãe de Don João. Depois de 16 anos de clausura devido à sua demência, a rainha-mãe gritava aos condutores dos coches que os conduziam: "não corram tanto, querem que todos pensem que estamos a fugir?" A situação nos navios era muito difícil. As embarcações tinham saído com os porões superlotados e três vezes a capacidade normal de pessoas a bordo. O congestionamento interno a bordo era total, havia gente e coisas espalhadas por todos os lados. Não havia camas para todos e várias pessoas dormiam no convés, enfrentando as chuvas e o calor aumentava à medida que se aproximavam dos trópicos. A água e a comida foram racionadas para que não faltassem até ao final da viagem. Na confusão do embarque, muitos ficaram apenas com a roupa do corpo. Os que tinham embarcado as bagagens não conseguiram encontra-las. Era muito difícil manter a higiene a bordo, pois não havia água para o banho para tantas pessoas e a pequena tripulação não conseguia dar conta da limpeza dos navios. Essa situação também atingia a família real e, logo um surto de piolhos fez com que aprincesa Carlota Joaquina e as damas da corte tivessem de rapar as cabeças e enrola-las em faixa para evitar a propagação. O Rio de Janeiro passava a ser a sede da instalação da Corte no Brasil. Vê-se o Palácio dos Vice-Reis onde se alojava a realeza. Don João deixará uma declaração ao povo português que sua partida era preferível a uma resistência que certamente, seria derrotada. Dizia que tudo fizera para manter a neutralidade do reino de Portugal, mas as tropas de Napoleão estavam a caminho da capital com a intenção de derruba-lo, e por isso ele tinha de partir com corte até que a paz novamente se restabelece-se. Nomeava uma regência para governar o país enquanto estivesse fora. Com a partida da família real, a grande vitoriosa foi a Inglaterra. O primeiro-ministro inglês William Pitt, discursou no parlamento, afirmando: "transferindo-se o trono português para o Brasil o Império da América do Sul e o da Grã-Bretanha ficarão ligados eternamente, fazendo essas duas potencias um comércio exclusivo". Logo no princípio da viagem surgia uma tormenta que dispersou quase toda a esquadra. Um veleiro O ‘Voador’, chegou primeiro ao Brasil, entrando no Rio de Janeiro no dia 14 de Janeiro de 1808 com uma viagem de quarenta e seis dias. Pouco depois fundearam aí outros navios com parte da família real, ao passo que o príncipe regente chegava à Bahia, desembarcando a 23 de Janeiro de 1808. Esses navios fundearam na Bahia às 4 horas da tarde do dia 22 de Janeiro, desembarcado a família real no dia 24 de Janeiro às 5 horas da tarde. A viagem para o Rio de Janeiro só iria ocorrer 30 dias depois do desembarque. Da Bahia, Don João seguiu para o Rio de Janeiro.

A chegada do Príncipe Don João ao Brasil deu inicio a uma nova época na História do Brasil, pois a colónia foi a grande beneficiada com a transferência da Corte. A presença da administração real criou pouco a pouco condições para a futura emancipação política da colónia  O Brasil que o regente e sua Corte encontraram tinha dezassete capitanias e uma população estimada entre 3 a 4 milhões de habitantes, não contando os índios não aculturados. Pouco menos da população era composta de escravos negros e pardos. Pouco mais da metade era constituída de pessoas livres, brancos em sua maioria. No total apenas um terço da população era de brancos. A sociedade era tipicamente agrária, e apesar do crescimento urbano do último meio século, as cidades eram modestas e muito precárias. Salvador possuía 60.000 pessoas, Recife 30.000, São Paulo 20.000. Com a instalação da Côrte, no Rio de Janeiro, a cidade ultrapassou os 100.000 habitantes, o que agravou suas carências de infra-estrutura, como moradias, abastecimento de água, saneamento, saúde. A vinda do governo português para o Brasil facto único na história dos colonizadores europeus da América, não alterou radicalmente esse quadro. Mas a permanência de quase década e meia da Corte no Rio de Janeiro e a transposição para a colónia dos principais órgãos da Estado metropolitano, fizeram do Brasil nesse período, o centro do Império Português, situação única no mundo e na história universal. Entretanto a presença portuguesa no Brasil mudou, o equilíbrio das relações colónia metrópole a favor da colónia  na sua maior autonomia e, no final, de sua emancipação. Ainda em Salvador, Don João assinou a Carta Régia de 28 de Janeiro de 1808, decretando a abertura de todos os portos brasileiros, sofrendo grande influência de José da silva Lisboa, o Marques de Cairú. Ficava liberada a importação de quaisquer mercadorias transportadas em navios portugueses ou estrangeiros em paz com a Coroa Portuguesa. Portugal pagaria 16% de taxa alfandegária e os outros países 24%. O decreto de abertura dos portos, colocou fim ao monopólio português sobre o comércio brasileiro, que era a base da política colonial portuguesa. Vários factores contribuíram para abertura dos portos no Brasil. O Estado Português até então mercantilista, convencera-se repentinamente das vantagens do liberalismo económico, porém, estavam radicalmente enganados. A medida aparentemente liberal surgiu da necessidade de se conseguirem recursos financeiros para a implantação da administração na nova sede da Coroa sendo a cobrança das taxas alfandegária o melhor meio de obtê-la. As pressões inglesas aliadas às dos proprietários locais tornavam-se acirradas, desencadeando os factores que em conjunto levaram ao fim do pacto colonial. A ofensiva contra os estatutos coloniais prosseguia. Em 1º de Abril de 1808, Dona Maria I revoga o alvará de 1785, liberando o estabelecimento de indústrias e manufacturas no Brasil. Na prática essa providência não atingiu seus objectivos, dava-se liberdade industrial e não condições para o desenvolvimento de indústrias, faltava o capital e um mercado consumidor interno. Além disso, sem protecção alfandegária, tornava-se impossível competir com os produtos britânicos.


A Esquadra Real Portuguesa

Comandante em Chefe da Esquadra Real
Príncipe Regente Don João

13 navios de linha, 4 fragatas, 5 brigues, 3 escunas e 3 charruas

Total 28 navios de guerra - 1.410 peças de artilharia

Comandante da Esquadra

Vice-Almirante Manuel da Cunha Sottomayor

Ajudante-General

Comodoro Joaquim José Monteiro Torres

Príncipe Real

(navio real)

Navio de Linha

(navio de linha de 2ª classe, com 84 peças de artilharia e 950 homens)

Vice-Almirante Manuel da Cunha Sottomayor

Capitão-de-mar-e-guerra Francisco do Canto e Castro Mascarenhas-Comandante do Navio

Sua Alteza Real Dona Maria I Rainha de Portugal

Príncipe Regente Don João

Infante Don Pedro Príncipe da Beira

Infante Don Miguel

Infante de Espanha Don Pedro Carlos

Afonso de Albuquerque

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia e 634 homens)

Comodoro Joaquim José Monteiro Torres

Capitão-de-mar-e-guerra Inácio da Costa Quintela-Comandante do Navio

Princesa do Brasil Dona Carlota Joaquina

Infanta Dona Maria Isabel Francisca

Infanta Dona Maria da Assunção

Infanta Dona Ana de Jesus

Princesa da Beira infanta Dona Maria Teresa

Rainha de Portugal

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia e 669 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra Francisco Manuel de Sottomayor-Comandante do Navio

Infanta Dona Maria Francisca de Assis

Infanta Dona Isabel Maria

Conde Don Henrique

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia e 753 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra José Maria de Almeida-Comandante do Navio

Medusa

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia e 669 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra Henrique da Fonseca de Sousa Prego-Comandante do Navio

Príncipe do Brasil

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia e 663 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra Francisco Borja Salema Garção-Comandante do Navio

Princesa viúva Dona Maria Francisca Benedita

Infanta Dona Maria Ana

(ambas irmãs da Rainha)

Don João de Castro

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia e 663 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra Don Manuel João de Lôncio-Comandante do Navio

Martim de Freitas

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia e 634 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra Don Manuel de Meneses-Comandante do Navio

Golfinho

Fragata

(navio de linha de 5ª classe, com 40 Peças de Artilharia e 300 homens)

Capitão-de-Fragata Luís da Cunha Moreira (pai)-Comandante do Navio

Urânia

Fragata

(navio de linha de 5ª classe, com 40 Peças de Artilharia e 329 homens)

Capitão-de-Fragata José Manuel de Meneses-Comandante do Navio

Minerva

Fragata

(navio de linha de 5ª classe, com 44 Peças de Artilharia e 349 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra Rodrigo José Ferreira de Lobo-Comandante do Navio

Princesa Carlota

Fragata

(navio de linha de 5ª classe, com 44 Peças de Artilharia e 349 homens)

Capitão-de-Fragata Francisco António da Silva Pacheco-Comandante do Navio

São Boaventura

Brigue

(navio de linha de 6ª classe, com 22 Peças de Artilharia e 90 homens)

Vingança

Brigue

(navio de linha de 6ª classe, com 28 Peças de Artilharia e 97 homens)

Capitão-de-Fragata Diogo Nicolau Kearling-Comandante do Navio

Lebre

Brigue

(navio de linha de 6ª classe, com 22 Peças de Artilharia e 133 homens)

Capitão-de-mar-e-guerra Daniel Thompson-Comandante do Navio

Voador

Brigue

Capitão-de-Fragata Francisco Maximiliano de Sousa-Comandante do Navio

(navio de linha de 6ª classe, com 22 Peças de Artilharia e 136 homens)

Condessa de Resende

Brigue

Primeiro-tenente Basílio Ferreira de Carvalho-Comandante do Navio

(navio de linha de 6ª classe, com 20 Peças de Artilharia e 90 homens)

Ninfa

Escuna

(navio de linha de 6ª classe, com 18 Peças de Artilharia e 60 homens)

Théris

Charrua

Primeiro-tenente Paulo José Miguel de Brito-Comandante do Navio

(navio de linha de 5ª classe, com 36 Peças de Artilharia e 100 homens)

Furão

Escuna

Capitão-Tenente Joaquim Martins-Comandante do Navio

(navio de linha de 6ª classe, com 16 Peças de Artilharia e 60 homens)

Curiosa

Escuna

Primeiro-tenente Isidoro Francisco Guimarães-Comandante do Navio

(navio de linha de 6ª classe, com 16 Peças de Artilharia e 43 homens)

Princesa da Beira

Charrua

Primeiro-tenente Joaquim José Álvares-Comandante do Navio

(navio de linha de 5ª classe, com 26 Peças de Artilharia e 100 homens)

São João Magnânimo

Charrua

Primeiro-tenente Custódio José da Silva e Meneses-Comandante do Navio

(navio de linha de 5ª classe, com 26 Peças de Artilharia e 100 homens)

Esquadra Real Britânica

5 navios de linha - 432 peças de artilharia

Comandante da Esquadra

Vice-Almirante Smith

Ajudante-General

Comodoro Moore

Hybernia

(navio almirante)

Navio de Linha

Vice-Almirante Smith

(navio de linha de 1ª classe - deixou a esquadra a 5.12.1807)

London

Navio de Linha

Comodoro Moore

(navio de linha de 1ª classe, com 100 Peças de Artilharia)

Bedford

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia)

Malborough

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia)

Monarca

Navio de Linha

(navio de linha de 3ª classe, com 74 Peças de Artilharia)

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